"Zuza Homem de Mello"

Às vésperas de completar 70 anos, sendo quase 40 deles dedicados ao garimpo e estímulo do que há de melhor na produção nacional, esse senhor de cabelos e barbas brancas – chamado José Eduardo Homem de Mello-, visto em tudo que é projeto e festival de música, não se cansa de ouvir e de procurar talentos semi-escondidos ou esquecidos. Ele é um dos curadores do Tim Festival, marcado para outubro, no Rio de Janeiro, e que promete seguir a linha daquele que era o festival brasileiro mais interessante dos últimos anos: o "Free Jazz".

Musicólogo. Jornalista. Radialista. Produtor musical. Em 1954, ingressou na Faculdade de Engenharia da PUC-SP, não chegando a completar o curso. Estudou na Juilliard School of Music de Nova York (musicologia), na School of Jazz de Tanglewood, Massachussets e na New York University (literatura inglesa), nos Estados Unidos, em 1957 e 1958.

Nos anos 1950 atuou profissionalmente como contrabaixista. Em 1956, como a trabalhar como jornalista, assinando uma coluna de jazz para a publicação "Folhas". Colaborou para o "Jornal do Brasil" e a revista "Down Beat". Em 1959, foi contratado pela TV Record, onde atuou durante 10 anos, tendo sido responsável pelas contratações de dezenas de artistas internacionais como Sammy Davis Jr. e Sarah Vaughn. Atuou, também em produção e como engenheiro de som dos programas musicais de MPB e dos festivais de música dos anos 1960 realizados pela emissora. É autor do livro "Música Popular Brasileira - período da Bossa Nova aos Festivais", lançado em 1976 e foi coordenador da "Enciclopédia da Música Brasileira". Entre 1977 e 1988, concentrou suas atividades no radio e imprensa. Produziu e apresentou o "Programa do Zuza", transmitido diariamente pela Rádio Jovem Pan. O programa, lider de audiencia às 5 da tarde, recebeu diversos prêmios. Criou e produziu as inovadoras vinhetas de moldura da programação da emissora. Trabalhou durante 10 anos como crítico de música popular no jornal "O Estado de São Paulo". Colaborou para as revistas "Som 3" e "Nova" e para outros jornais e publicações no Brasil e no exterior. Planejou e coordenou a 3ª edição dos fascículos "Historia da Música Popular Brasileira", da Editora Abril. Dirigiu, nos anos 1970, a série de shows "O Fino da Música", no Anhembí, que apresentou Elis Regina, Elizeth Cardoso, Orquestra Tabajara, além de artistas então em começo de carreira como João Bosco, Ivan Lins, Emilio Santiago e Alcione, entre outros. Nos anos 1980, dirigiu as três edições dos Festival de Verão do Guarujá, trazendo artistas veteranos, como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, e outros em início de carreira, na época, como Djavan, Beto Guedes e Alceu Valença, além de artistas já consagrados, como Jorge Ben e Raul Seixas. Dirigiu Milton Nascimento e Gilberto Gil na série "Basf Chrome Music". Produziu a tournê de Milton ao Japão, em 1988. Foi jornalista convidado nos Festivais de Montreux (1978 e 1981), de Edinburgo (1985), JVC de Nova York (1987), de Jazz em New Orleans (1993, 1994, 1996, 1997, 1999 e 2000), em Barbados (1995) e em Paris (1987), no Midem (1979 e 1995) e Audio Fair de Tokio (1982). Foi programador na equipe das duas edições do Festival de Jazz de São Paulo (1978 e 1980). É curador do elenco do Free Jazz Festival (Rio e São Paulo), nas 15 edições, desde 1985. Dirigiu as três edições do Festival Carrefour, nos anos 1990, revelando nomes como Chico César entre milhares de inscritos. Escreveu nos últimos 25 anos textos para contra-capas ou releases dos mais importantes artistas da música popular brasileira. Produziu discos com artistas novos e consagrados, como Orlando Silva, Jacob do Bandolim, Severino Araujo, Carolina Cardoso de Menezes, e, em 1994, Elis Regina, na caixa de três CDs "O fino da bossa", com fitas de seu arquivo. Há mais de 35 anos realiza cursos, palestras ou seminários e participa de debates sobre MPB e Jazz. Foi jurado ou presidente de júri dos principais festivais nacionais ou regionais no Brasil e do Premio Sharp, do qual foi membro do conselho. Exerceu o cargo de presidente da Associação dos Pesquisadores de MPB e foi assessor da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo em 1990. Apresentou, em 1990 e 1991, o programa "Jazz Brasil" (TV Cultura) e, de 1994 a 1997, a série "Ouvindo estrelas", no Sesc Pompéia, com depoimentos ao vivo e shows de vários artistas. Em 1995, atuou como A & R da gravadora Concord Jazz no Brasil. Nesse mesmo ano, dirigiu o show "Raros e inéditos", com músicas dos anos 1920 e 1930 nas vozes de Ney Matogrosso, Zizi Possi, Paulo Moura, Wagner Tiso e outros, que recebeu o prêmio APCA. Produziu o CD "Elis ao vivo", disco de ouro pela gravadora Velas. Em 1996, dirigiu o show "Lupicinio às Pampas", sobre a obra de Lupicinio Rodrigues. Montou o repertório do CD "Leão do Norte" de Elba Ramalho. Dirigiu o show "Ramalhete de melodias", com Cauby, Agnaldo Rayol e Inezita Barroso. No ano seguinte, dirigiu no SESC o evento "Aberto para Balanço - 50 anos de MPB", série de 10 shows com 33 artistas como Zé Ramalho, Os Cariocas, João Donato, Beth Carvalho e Silvio Caldas em sua última apresentação. Ainda em 1997 lançou, com Jairo Severiano, o 1º volume do livro "A Canção no Tempo - 85 anos de músicas brasileiras", com destacada repercussão e já na 4a edição. O volume 2 foi lançado um ano depois e já se encontra em sua 3a edição. Em 1998, produziu o concerto "100 Anos de Gershwin: Rhapsody in Blue", com o duo de pianistas argentinos de Jazz Jorge Navarro e Baby Lopez Furst e Orquestra Sinfônica. Em 1999, apresentou programas comemorativos dos 30 anos da TV Cultura, criou o repertório do CD "Canções Paulistas com os Trovadores Urbanos". Em 2000, dirigiu o projeto "Negro Som", trazendo artistas africanos, o Zydeco da Louisiana e os Afro Cuban All Stars, que trouxe pela segunda vez para o Via Funchal. Colabora para o jornal "Valor Econômico". Em 2001, publicou o livro "João Gilberto" (Publifolha). Nesse mesmo ano, começou a escrever um livro sobre os festivais de música dos anos 1960, trabalho a que se dedicou, ainda em 2002, quando atuou como consultor do projeto "A era dos festivais", com debates e shows semanais, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil (RJ). Copyright © 2002 Instituto Cultural Cravo Albin

“Não faltam talentos no País, faltam ouvidos que saibam ouvir música”

Por Darlan Alvarenga, repórter iG em São Paulo

 

SÃO PAULO - Para o musicólogo e crítico de música Zuza Homem de Mello, que está lançando a “Era dos Festivais – Uma Parábola”, a música popular brasileira vive uma crise. Mas não de talentos. De ouvidos. Ouvidos que saibam ouvir a música brasileira de qualidade. “Faltam ouvidos que saibam ouvir música. Nas gravadoras, nas redes de televisão e nas rádios”, afirma.

Não é à toa que cantores e músicos batem à sua porta na esperança de ao menos cair no seu gosto. São mais de 30 CD´s recebidos a cada mês. Ele admite que mais de 70% do que recebe não consegue ouvir uma segunda vez. 

Dono de sólida formação musical, contrabaixista profissional formado nos Estados Unidos e aluno de Musicologia da Juilliard School of Music, de Nova York, Zuza afirma que atualmente o seu programa preferido é ir aos concertos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Ele diz, no entanto, que ainda se surpreende ao ouvir músicos como Guinga, Renato Brás ou Rosa Passos – desconhecidos do grande público.

Para ouvidos menos exigentes, no entanto, Zuza pode parecer um purista. Na opinião dele, João Gilberto é a melhor dádiva que o ouvido do brasileiro já recebeu. “Um compasso do João Gilberto vale muito mais do que toda a obra do Zezé di Camargo”, diz.

Nesta entrevista ao Último Segundo, Zuza discute a produção brasileira musical e fala sobre o livro que consumiu os seus últimos cinco anos e impediu que fizesse no ano passado as suas rotineiras viagens ao exterior. 

A “Era dos Festivais” traz revelações inéditas de um período de renovação estética jamais visto na música brasileira e permite uma melhor compreensão das conseqüências do fim dos festivais - que coincide com o recrudescimento dos militares. Segundo Zuza, com o fim da era dos festivais rompeu-se uma cadeia criativa na produção musical brasileira. “Perdeu-se o ritmo. A MPB ficou como um trem que parou numa estação e ficou esperando a hora de sair de novo do lugar”. 

Leia a entrevista:

Último Segundo: No surgimento dos primeiros festivais da década de 60 o senhor atuava como engenheiro de som da Record. No meio de toda aquela efervescência, já tinha a sensação de estar vivendo um momento único no cenário musical brasileiro?

Zuza Homem de Mello: Eu comecei a ter plena consciência disso em março de 1965, quando a Elis Regina fez o primeiro Fino da Bossa, na TV Record. Tanto que eu guardei as fitas. Achei que aquilo era um documento. Vinte anos depois eu lancei essas fitas sob a forma de três CD´s chamados “Elis Regina no Fino da Bossa”. Isso mostra que eu tinha plena consciência da renovação da música popular um ano antes. Quando apareceu o festival em 1966, a atmosfera que cercou tudo aquilo foi uma coisa que envolveu a cidade inteira. Todo mundo tinha que, de alguma maneira, dar uma opinião a respeito. Para mim era nítido que aquilo ia perdurar. 

US: Uma das revelações do livro é que, apesar do empate de Disparada e de A Banda no segundo Festival Record, em 1966, o júri havia premiado A Banda: sete votos contra cinco para Disparada. As notas dos jurados estão com o senhor até hoje? 

Zuza: Desde o momento que o Paulinho (Machado de Carvalho, diretor da TV Record) me confiou os votos, isso nunca saiu das minhas mãos, nem revelei o resultado a ninguém. Isso ficou guardado num cofre que tinha na casa de minha mãe durante muitos anos. Quando ela saiu de lá e foi para um apartamento menor, alguém da transportadora retirou os documentos que estavam lá e eu perdi, mas nunca ninguém mais viu este documento. Saiu nas entrelinhas da imprensa que o empate foi montado, mas só algum tempo depois e de maneira muito velada, mesmo porque o Chico nunca se manifestou sobre isso, embora tenha sido inquirido.

US: Você chegou a abordá-lo novamente sobre o assunto para escrever o livro? O livro conta que, na ocasião, Chico Buarque disse que se A Banda fosse premiada no lugar de Disparada – que ele considerava superior - ele devolveria o prêmio em público.

Zuza: Não, porque eu tenho muita amizade com ele e sei que ele não gosta de falar do assunto. Eu também não tinha necessidade disso, pois os votos estavam comigo. Tudo que eu precisava saber é como se deu a trama. E isso eu consegui por outras pessoas.

US: Como você analisa essa postura do Chico?

Zuza: Isso faz parte da integridade dele, essa que muitos artistas demonstram que gostariam de ter. Além de todo o mérito e talento que se reconhece nele, o Chico Buarque tem um comportamento ético sem paralelo. Eu também fui ético porque muitas pessoas me perguntaram e eu nunca revelei, nem quando houve um livro sobre o Chico Buarque (song book Chico Buarque Letra e Música). O Humberto Werneck fez uma entrevista comigo e eu contei que fiquei com os votos. Então, ele me perguntou: ‘quem ganhou?’. E eu falei que não iria dizer. E não era porque eu estava querendo guardar esse segredo para mim, era porque eu tinha empenhado minha palavra em não dizer para ninguém. No livro é a primeira vez que eu revelo o resultado.

US: Outra revelação surpreendente é que, no festival de 1971, o escândalo da desistência de última hora dos 12 maiores compositores do País tratou-se na verdade de um plano de conspiração arquitetado com antecedência com a participação de um diretor da Rede Globo que, segundo o livro, também seria militante clandestino da Aliança Libertadora Nacional.

Zuza: Nem a direção da Globo sabia dessa atuação dupla do diretor artístico do festival, Gutemberg Guarabira. O plano era usar o festival e a emissora para um protesto contra a censura, eles já tinham em mente o que iria ocorrer. Por isso combinaram de inscrever as músicas, mas entregar as letras só no último momento, todas de uma vez. A censura não teria como barrar. Não haveria como explicar uma desistência dos melhores compositores brasileiros num festival que era usado para fazer uma divulgação favorável e cor-de-rosa do País. 

US: Além dessas revelações, no que o livro contribui no entendimento da importância desse período e dessa geração?

Zuza: Há dois aspectos importantes. Primeiro, ele traz uma panorâmica de como o governo militar interferiu na música popular brasileira, chegando a ceifar a carreira de artistas como Toni Tornado e, de certa forma, o Geraldo Vandré, que ficou atemorizado. Outro ponto é mostrar a uma nova geração como houve um posicionamento social, político e musical da classe estudantil a ponto de provocar uma reação nos militares. 

US: Por que os militares temiam tanto as músicas dessa geração? 

Zuza: O governo sentiu que aquilo era uma coisa quase ameaçadora para o regime, embora ninguém tivesse nenhum revólver na mão. Só tinham a canção, a vaia e o aplauso. No entanto, isso ameaçou os militares. Tanto que foram impostas condições para a realização dos festivais. No FIC (Festival Internacional da Canção Popular), os militares mandam os diretores dizerem que Caminhando e Cantando (Para não dizer que não falei das Flores, de Geraldo Vandré) não podia ganhar. Isso é uma pressão que não se pode imaginar que pudesse existir. É como se hoje o presidente Lula mandasse trocar o resultado de um prêmio Visa.

O grande temor dos militares era que se revelasse o que ocorria nos porões da ditadura. Eles queriam dar a imagem de um País feliz. Por isso que, na fase do FIC, os festivais eram transmitidos para o exterior. Eles queriam mostrar a felicidade do povo brasileiro, que o Brasil era a “Ilha da felicidade”. 

US: O senhor considera a era dos festivais o período entre 1965 e 1972. O fim dos festivais coincide com o recrudescimento da ditadura, é essa a parábola a que se refere o título do livro?

Zuza: A parábola tem sempre um período de ascensão, auge e queda. O momento de ascensão são os primeiros festivais. Nunca se vivera no País uma discussão cultural tão empolgante como aquela. O momento culminante que é o do festival de 67, que se mantém em 68, quando é lançado o tropicalismo. Daí para frente, a parábola entra numa curva descendente, em função da brutal pressão dos militares. Um caminho sem volta.

US: Você fala no livro que com o fim da era dos festivais rompeu-se uma cadeia criativa. Qual foi o impacto disso? 

Zuza: Perdeu-se o ritmo. Não só a vida pessoal dos compositores, mas a MPB como um todo. Ela ficou como um trem que parou numa estação e ficou esperando a hora de sair de novo do lugar. Durante anos, os compositores tiveram de manter uma luta contra a censura para poder fazer valer a sua obra. Perdeu-se todo o estímulo. Essa geração tem um vazio num período de suas vidas que é refletido na obra. O período que o Caetano Veloso ficou em Londres, por exemplo, é um vazio, um buraco na obra dele. 

Outra decorrência negativa do fim dos festivais é que a música deixa de estar na televisão. A nata da música brasileira chegava aos espectadores em suas casas em primeira mão. Eram músicas inéditas. Não tinham uma segunda mão. Não tinha essa montagem, armação, de constituir-se um sucesso através de artifícios de mercado. Chegava lá o cara cantava e a música agradava ou não agradava. A TV deixou de ser esse canal. A TV Globo tentou uns festivais, há tentativas da TV Cultura, mas com essas mesmas características - de chegar direto o que há de melhor – nunca mais existiu e acho improvável que volte a ocorrer. 

US: Em 2000, a Globo tentou ressuscitar o modelo com o Festival da Música Brasil. O vencedor Ricardo Soares ganhou R$ 400 mil, gravou um CD e ninguém nunca mais ouviu falar dele. Por que a fórmula não deu mais certo?

Zuza: O Festival Visa dá certo. Sabe por quê? Porque é dirigido por um músico, chamado Nelson Aires. O Festival da Globo era dirigido por algum músico? Um festival precisa ter um ouvido de músico. O País precisa de ouvidos e pessoas que possam ouvir a música brasileira. O que mais falta não são talentos, são ouvidos para ouvir os talentos. 

US: Os festivais ainda são um canal importante para o lançamento de novos artistas? 

Zuza: A era dos festivais terminou, mas ainda existem festivais regionais que sobrevivem, como o Fampop de Avaré. No último ano que eu fui fiquei muito impressionado com um compositor chamado João Linhares, que eu acho que é um candidato a uma obra interessante. Se não fosse o festival, não ficaria sabendo dele. 

US: Você acredita que, sem os festivais, a geração de autores e intérpretes musicais dos anos 60 e 70 teria conseguido o mesmo destaque e sucesso?

Zuza: Teria, só que demoraria muito mais tempo. ‘A Banda’ não seria um sucesso imediato, nem ‘Disparada’. Milton Nascimento e Chico Buarque também não fariam sucesso de imediato. A TV abreviou muito esse período de ascensão artística que um artista normalmente leva. Muitos artistas amadurecem em termos de popularidade aos 30 anos. Essa geração tinha pouco mais de 20 anos em média, a maioria vinda do meio universitário. Na época dos festivais, os discos que mais se vendiam eram os dos festivais. Era o estouro da boiada, vendia horrores. É claro que algumas foram proibidas e com isso prejudicadas. Mas a música de qualidade era a campeã de vendagem.

 

“Um compasso do João Gilberto vale muito mais do que toda a obra do Zezé di Camargo”
US: Como foi que a MPB foi perdendo mercado e deixando de provocar a mesma empolgação no público em geral? 

Zuza: O lançamento do CD provocou uma socialização da música popular e permitiu que um número maior de pessoas passasse a consumir música. E essa massa gigantesca tem um direcionamento e nível de preferência muito menos exigente e ambicioso. Com qualquer coisinha o pessoal se ilude achando que aquilo é maravilhoso. A primeira notícia para uma música de qualidade deixou de ser o rádio e televisão. Hoje em dia, o canal para se ter acesso a uma música de qualidade são os shows, a indicação de um jornal ou de um amigo. Você só tem acesso ao João Gilberto, vendo o show dele no Tom Brasil. Você não tem acesso a ele ou ao Milton Nascimento ligando a televisão no domingo ou ouvindo a maioria das rádios brasileiras. 

US: Três décadas após a era dos festivais, a lista de nomes de destaque da MPB teve poucos acréscimos. Faltam nomes, espaço ou reconhecimento?

Zuza: Um aspecto é que os nomes que surgiram na época dos festivais continuam sendo os maiores ídolos. Se for anunciado um show do Chico Buarque na véspera da apresentação, ainda assim o show vai lotar com a maior facilidade. Nas últimas duas décadas tivemos elementos isolados que fizeram um trabalho maravilhoso. Você não pode ignorar um João Bosco, Ivan Lins, Moraes Moreira, João Bosco, Alceu Valença, Djavan, entre outros. A questão é que não houve mais a formação de um grupo coeso.

US: Como o senhor analisa o panorama atual da música brasileira? O que você gosta de ouvir?

Zuza: Eu gosto muito de ouvir um Renato Braz, essas vozes femininas novas Vigínia Rosa, Na Ozetti, Mônica Salmazo. Os músicos brasileiros evoluíram muito. Você tem um trabalho de arranjos e de execução instrumental de primeiro nível. Agora, ainda faz falta grandes compositores. Tem muita coisa aí que é executada que não me entusiasma nenhum pouco. Os grandes compositores da geração anterior quando estão inspirados ainda passam a perna em todos os novos que estão pintando por aí. Mas ainda tem muita coisa que me surpreende. Outro dia eu ouvi um grupo de choro, chamado Tira Poeira, excelente. No Chivas Festival, apareceu um violoncelista grego, que mora em São Paulo, e o cara fez um solo espetacular. Essas coisas que estão semi-escondidas que me entusiasmam e vou atrás.

US: A impressão que se tem é há poucos caça-talentos deste tipo de música. Além de você, tem mais gente que faz isso no Brasil?

Zuza: Tem, só que eles não estão no comando. Tem uma gravadora nova chamada Indi Records que está retomando a carreira de vários artistas e se sobressaindo. A Indi fez, por exemplo, o Luiz Melodia vender - a carreira dele nunca tinha se firmado, embora seja reconhecidamente de muito valor. Por que a Indi fez um Luiz Melodia vender e a gravadora a qual ele estava contratado não? Por que a Indi é comandada por um músico.

US: Faltam músicos no comando das gravadoras, é isso?

Zuza: Faltam ouvidos que saibam ouvir música. Ouvidos musicais. Nas gravadoras, nas redes de televisão e nas rádios. Será que tinha algum cara de gravadora ouvindo o violoncelista grego no Chivas Festival. Será que bateu nele a curiosidade de ir assistir o festival com o objetivo de descobrir algo interessante? Eu acho pouco provável. Esse pessoal é muito mais interessado em números, em como fazer a promoção, em como embelezar uma mulher e transformá-la sexualmente atraente do que propriamente ouvir a voz do cantor ou da cantora. Isso tudo é para disfarçar aquilo que a pessoa não tem. Música não entra pelos olhos, entra pelos ouvidos. O João Gilberto se apresenta da mesma forma até hoje: um terninho, uma gravata, um banquinho, um violão e dois microfones.

US: João Gilberto ainda é vanguarda?

Zuza: João Gilberto é a melhor dádiva que o ouvido do brasileiro já recebeu. E pode ter certeza: o mundo inteiro tem inveja da gente.

US: Nossa música de qualidade é mais valorizada fora do País do que aqui? 

Zuza: Com certeza. Vou dar um exemplo: pouca gente que ler essa entrevista vai saber quem é a cantora Rosa Passos. No entanto, no segundo semestre deste ano ela vai fazer uma excursão para a Ásia ao lado do maior violoncelista vivo chamado Yo-Yo Ma. Ambos vão se apresentar nos principais palcos do mundo juntos, mas pode ter certeza de que não tem a menor possibilidade dela se apresentar no Brasil. Nem mesmo após uma temporada dessa ela teria espaço num Credicard Hall ou num Tom Brasil.

US: Por outro lado, cantores como o Alexandre Pires fazem tanto sucesso aqui como faz no exterior.

Zuza: Isso existe porque existe um público de poucos horizontes no mundo inteiro. O Nelson Ned lotou Carnegie Hall anos atrás, o que não é um certificado para me garantir que ele passou a ser cantor de primeira qualidade. O Nelson Ned tem um público cujas ambições musicais são limitadíssimas. Se o Nelson Ned lotou o Carnegie Hall, o Alexandre Pires pode perfeitamente cantar em Porto Rico e ter lá o público dele.

US: Qual a sua opinião sobre a qualidade da crítica musical feita nos jornais e revistas?

Zuza: A crítica depende muito da experiência. Uma música de dois minutos dura exatamente dois minutos. Portanto, um crítico de 20 anos de música ouviu menos música do que um crítico de 40 anos de música. O número de horas que o sujeito ouviu na vida tende a pesar forte nessa balança. Mas no geral, temos bons críticos.

US: O nome do senhor é sempre lembrado em qualquer projeto de festival ou de incentivo de novos talentos. A impressão de alguns é que o senhor representa quase um monopólio na música popular brasileira. O senhor tem concorrente?

Zuza: Tem muita gente boa aí. O que diferencia um pouco o meu trabalho dos outros é que eu atuo em várias áreas. Um crítico só faz crítica. Eu também faço releases para músicos que me pedem. Neste mês, por exemplo, fiz um release para o CD da Paula Lima, estou dando um curso de música popular no Teatro de Cultura Artística, vou atuar como diretor e produtor num show homenageando o Caximbinho e ao mesmo tempo estou fazendo a programação do Tim Festival, que vai ocorrer em outubro no Rio.

US: O festival manterá a mesma proposta do Free Jazz, apresentando novidades internacionais e incentivar novos talentos? Já há nomes confirmados?

Zuza: Vai ser basicamente o que era o Free Jazz, mesmo porque a curadoria é a mesma. Serão três palcos diferentes. Um focalizando o jazz e outro o mais pop, que é o conceito que vinha sendo seguido nos últimos anos do Free Jazz. Ainda não montamos o elenco. A idéia é trazer coisas novas e tributos. Gostaria muito de colocar o saxofonista J.T. Meirelles, que é um músico brasileiro que voltou a tocar mais recentemente e é um grande músico.

US: Uma das marcas do Free Jazz era você correndo de um palco para outro apresentando pessoalmente as atrações. Você gosta de fazer isso? 

Zuza: Eu adoro isso. Eu faço a apresentação e vou circular. Minha curtição no Free Jazz é estar no meio dos jovens porque vem muita gente falar para eu programar fulano de tal, conhecer beltrano. E eu vou atrás. 

US: A música brasileira é dominada pelo pop-rock. Tem alguma coisa aí no mercado que te agrada? 

Zuza: Não é uma coisa que eu escuto com freqüência, mas eu dou valor. Eu gosto muito do Skank, desde o primeiro disco. Outra coisa nova que surgiu e gostei foi o manguebeat, que teve a lastimável perda do Chico Sciense. Era visível a raiz, a veracidade da música deles. E é fundamental que exista esta veracidade. Você percebe quando um sujeito está mentindo em relação à música dele, quando ele está falando da boca para fora. Atualmente, o que eu ouço é muito mais música erudita. Eu ouço a Rádio Cultura que só toca música erudita e toda quinta-feira vou ao concerto da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). E não há nada que me faça trocar de programa.

US: A mistura de estilos parece ser uma tendência da atual música brasileira. Como o senhor vê isso, sobretudo da música eletrônica?

Zuza: Depende da mão, porque misturar é sempre mais complicado. O sujeito precisa dominar muito bem e não achar que isso é um brinquedinho que facilita a vida dele. A música eletrônica tem contra si o swing, que é um elemento muito importante e fundamental na música popular. Pela própria natureza dos instrumentos eletrônicos, o swing fica de certa forma abolido. Aquela tendência de ficar batido como ocorre na segunda metade das festas de casamento eu confesso que não vejo graça nenhuma, acho uma coisa mecânica e se há algo que não pode ser mecânico é a música, que é a mais abstrata das artes. 

US: O grande vencedor do Prêmio Multishow foi o CD "Tribalistas". O que o senhor achou da união de Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes. Tem algo de novo ali? 

Zuza: Foi muito bem promovido, mas não há coisa nova ali. Coisa nova é o Guinga (violonista e compositor), isso sim. Os Tribalistas foi o encontro de três artistas com trabalhos já reconhecidos. Se fizesse isso ou não fizessem não ia mudar muita a carreira deles. Não é nenhum salto na carreira deles.

US: O prêmio, que é baseado na opinião do público, escolheu ainda o Rouge como grupo revelação e Sandy e Júnior como melhor show. Seria uma premiação apenas do que é mais consumido? 

Zuza: Isso é o que os canais de televisão apresentam. Fazem sucesso, porque é divulgado. Existe um canal e é dirigida para um público cordial, fácil de ser dominado. O Rouge é astro de primeira grandeza no SBT como é no outro canal o MLK, o HML, como é que é?

US: KLB?

Zuza: Isso. Eles são os astros de primeira grandeza no outro canal, dentro da mesma idéia. Mas para música aquilo é zero. Eu já disse uma vez, e teve gente que não gostou – mas tenho certeza que a maioria concorda -, que um compasso do João Gilberto vale muito mais do que toda a obra do Zezé di Camargo. E é o que eu penso. Um acorde do Guinga no violão, vale muito mais do que todos os discos do Rouge e KLB juntos.

US: Nesse modelo de mercado, de TV e de rádio, dá para ter esperança numa mudança na qualidade da música consumida pelo público em geral? 

Zuza:Há dois tipos de pessoas: aquelas que vão ficar a vida inteira nisso e aquelas que num certo momento vai ficar instigada a um horizonte mais amplo, a ouvir uma coisa mais densa. Mas isso depende de fatores como idade, amadurecimento, da maneira como ela é exposta a coisas diferentes. A música do Milton Nascimento não é simples. Travessia, por exemplo, era considerada muito complicada, hoje não é mais. A pessoa precisa se desenvolver musicalmente. A pessoa precisa aprender ouvir música. Para aprender, ela precisa se concentrar naquilo que ouve, mas também não querer comer mais aquela comida ruim para o resta da vida. Se a pessoa tiver um horizonte a ser alcançado, vai chegar o momento que ela vai dizer: ‘chega de pão e banana!’.

 

Revelações de um era musical interrompida no País
Oito dias antes do 6º Festival Internacional da Canção Popular, em 1971, doze dos melhores compositores brasileiros, entre eles Chico Buarque, Paulinho da Viola, Tom Jobim e Edu Lobo, cancelaram sua participação em razão da “exorbitância, intransigência e drasticidade do Serviço de Censura” que impedia a livre produção artística. 

Isso é fato sabido. Como também é sabido que o anúncio caiu como uma bomba devastadora para a organização do festival - na época transmitido pela TV Globo - e para o governo militar. Uma agência internacional conseguiu mandar o notícia e o manifesto dos artistas contra a censura rodou o mundo, atingindo em cheio a propaganda da "Ilha da Tranqüilidade" do governo brasileiro.

Não É sabido, porém, que a desistência coletiva tratou-se de um plano de conspiração previamente arquitetado pelos compositores e idealizado por Gutemberg Guarabira, que acumulava a as funções de diretor artístico do festival e de clandestino militante da Aliança Libertadora Nacional. O mesmo que mais tarde viria formar um trio com Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix, mais tarde reduzido a dupla Sá e Guarabira.

O plano era usar o festival e a emissora para um protesto contra a censura. Por isso combinaram de inscrever as músicas, mas entregar as letras só no último momento, todas de uma vez. A censura não teria como barrar. Eles já imaginavam o que iria ocorrer, mas sabiam que os organizadores e o governo teriam dificuldade de explicar para o mundo a desistência dos melhores compositores brasileiros num festival que era usado para fazer uma divulgação favorável e cor-de-rosa do País. 

São revelações inéditas como essa que o leitor encontra em "A Era dos Festivais - Uma Parábola", (Editora 34, 528 págs.), o mais novo livro de Zuza Homem de Mello, que nos últimos seis anos publicou os dois volumes de "A Canção no Tempo" (em co-autoria de Jairo Severiano, uma análise da música brasileira ao longo do século 20) e um perfil de João Gilberto (Publifolha, 2001).

O autor vale-se da sua sólida formação musical, da condição de testemunha ocular - na época dos festivais ele era engenheiro de som da TV Record - e de um exaustivo trabalho de pesquisa que lhe consumiu os últimos cinco anos para recompor com profundidade um período de renovação estilística riquíssimo que caiu no gosto do grande público. 
“Nenhum tema ganhou tão rapidamente as ruas, sendo discutido por freqüentadores de bares e botequins, por motoristas e passageiros de táxis, pela aluna e o professor, a dona de casa e a empregada. Faziam-se apostas nos elevadores, todo mundo tinha um palpite, cada um preferia um ritmo. Acontecia uma discussão sobre a estética na rua, o gari e o jornaleiro argumentavam o que era mais bonito, o que era mais moderno, o que era mais antigo, qual letra era melhor... O Brasil inteiro viu pela primeira vez que música popular era coisa séria”, escreve Zuza sobre a agitação provocada pelo 2º Festival da Record, em 1966.

Com o livro, o País finalmente fica sabendo que naquele festival a marchinha "A Banda", de Chico Buarque, defendida pelo autor, a duas vozes com Nara Leão, foi a grande vencedora: sete votos contra cinco para "Disparada", toada caipira de Théo de Barros e Geraldo Vandré, interpretada por Jair Rodrigues. 

As fichas com as notas dos jurados foram guardadas num envelope e entregues pelo diretor do festival Paulinho Carvalho ao seu assessor, e também técnico de som da emissora, Zuza Homem de Mello, com a instrução de que fosse guardado num cofre e escondido sempre. Ao ser informado da vitória nos bastidores, Chico Buarque disse que se "A Banda" fosse premiada no lugar de "Disparada" - que ele considerava superior - ele devolveria o prêmio em público. Diante dessas circunstâncias, o festival acabou empatado.

Esquadrinhando o período entre 1960 e 1972 - do primeiro festival da TV Record ao 7º FIC, o Festival Internacional da Canção da TV Globo - o livro percorre os meandros da TV brasileira, da boemia paulistana e dos embates entre política e estética, acirrados a partir do golpe militar, e permite uma melhor compreensão das conseqüências da brutal pressão política sobre os festivais. “Rompeu-se uma cadeia criativa", afirma o autor. “A música deixou de estar na televisão”.

Zuza analisa as condições que fizeram surgir aquela brilhante geração de compositores e intérpretes musicais, e permitiram que pela primeira e única vez no País a música brasileira de qualidade fosse a mais consumida em todo o País. “A nata da música brasileira chegava aos espectadores em suas casas em primeira mão”, afirma Zuza. 

Com uma linguagem saborosa e inteligível, o autor conta a história das músicas que fizeram história dos festivais e faz ainda análises técnicas das canções mostradas nos concursos. O leitor também fica entendendo melhor o contexto de imagens antológicas. Como a de Elis Regina rodando os braços em “Arrastão”; de Sérgio Ricardo estraçalhando o violão e atirando-o contra a platéia; de Caetano Veloso, fora de si, discursando na apresentação de “É Proibido Proibir”; e dos militares proibindo a vitória de “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, enquanto o público vaiava “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque. Para ilustrar a narrativa, 140 imagens e reproduções de documentos espalham-se ao longo dos quinze capítulos.

O livro é enriquecido por dois apêndices. O primeiro traz uma relação minuciosa dos grandes festivais dos anos 60 e 70, com as músicas, compositores e intérpretes de cada eliminatória e a classificação final, além de relacionar outros festivais de projeção nacional vindos depois de 1972. 

O outro apêndice vem com a discografia completa dos festivais que o livro trata. A gravadora Universal deve lançar ainda este ano um CD duplo com 28 canções escolhidas por Zuza - as vencedoras dos festivais e as que não venceram, mas que ele considera importantes para a história da evolução da música brasileira. São gravações originais com os intérpretes contratados da antiga Philips.

Segundo o autor, o cd é uma espécie de trilha sonora do livro. Entre as 28 músicas, estão “Arrastão” (Edu Lobo e Vinícius de Moraes), interpretada por Elis Regina; “Roda Viva” (Chico Buarque), com MPB 4; “Domingo no Parque” (Gilberto Gil), cantada por Gil; “Carolina” (Chico Buarque), com Nara Leão; “O Sonho” (Egberto Gismonti), com o próprio Gismonti; “Sabiá” (Tom Jobim e Chico Buarque), com MPB 4; “Charles Anjo 45” (Jorge Ben), gravada por Jorge Bene Trio Mocotó; “É Proibido proibir” (Caetano Veloso), com Caetano e Os Mutantes; “Para não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré), interpretada por Trio Marayá; além é claro de “A Banda” e “Disparada”. 

Zuza considera que a era dos festivais terminou em 1972, ano do sétimo FIC, quando o governo militar ordenou a destituição do júri nacional e o jurado Roberto Freire quis ler, no palco, um manifesto contra a arbitrariedade. Foi retirado do palco pela polícia, levado para uma sala próxima e espancado barbaramente. Teve que ficar quinze dias no hospital se recuperando. 

Para o escritor, no entanto, foi no festival do ano anterior, considerado o mais medíocre de todos após a desistência dos maiores compositores do País, que o fim da era dos festivais começava a ser sinalizada.

“Na emissora das novelas, um dos mandamentos rezava que último capítulo devia ser um fecho de ouro, tinha que ter um final brilhante. Na novela do 6º FIC, todavia, não houve como seguir essa regra. Os capítulos mais dramáticos ocorreram antes da estréia, privando os telespectadores de assistir ao que aconteceu de mais eletrizante. A novela propriamente dita, foi um fiasco retumbante”, escreve Zuza. “Por mais que tentassem tapar o sol com a peneira, os que de fato conduziam o festival sabiam no seu íntimo que aquilo tudo era o preâmbulo do fim de uma era. Com um ano de antecedência”. 

Em maio de 1973, a direção da Globo admitiu que o FIC não seria mais realizado, alegando falta de interesse dos patrocinadores. “A Era dos Festivais saiu do ar”, finaliza Zuza.

Voltar para família

 

Inicial | Advogado e Calc. Trabalhista | Advogados Associados | Psicoterapia OnLine | Recursos Humanos | Poesias OnLine | Jogos/Downloads/MP3 | Estrela da Manhã | Noite Inusitada | Homenagem ao Maior Amigo | Dicas de Português | Tour e Folclore de PE | Brasil: São Paulo até Recife | 1ª Viagem Internacional | Europa: Espanha até Portugal | Europa I: 25 dias de Motorhome | Europa II: Espanha - Portugal | 19 dias de Trem pela Espanha | Dicas e Contatos na Europa | Família Homem de Mello | História do Homem de Mello | Genealogia Homem de Mello | Genealog. Mario Homem de Mello | Destaques na Família | Contatos Homem Mello | E-mail