PERDAS

Márcia Homem de Mello©

 

"Se alguma coisa se te opõe e te fere, deixa crescer.

É que estás a ganhar raízes e a mudar.

Abençoado ferimento que te faz parir de ti próprio." (Saint-Exupéry)

 

Você já se deu conta de quanta coisa ou pessoas perdeu ao longo da vida? Também já se deu conta de que sobreviveu a cada perda? Tá, umas com mais dificuldades do que outras. Olhe agora para trás e comece a contar nos dedos o que você já perdeu, quantos dedos você precisou?

Isso porque com certeza esqueceu-se de alguma coisa que não lhe foi tão relevante, ou que não lhe pareça uma perda, mas cada escolha que precisou fazer, necessitou deixar de lado alguma situação, pessoa ou oportunidade.

Voltando um pouco, o cordão umbilical, o seio da mãe, são nossas primeiras separações e eu duvido que você as computou. Assim como não se lembra do choro ao sair do acolhedor útero de sua mãe e ter que sentir o primeiro vento frio, a primeira vez que sugou uma mamadeira com gosto de plástico sem a maciez da pele da mãe junto ao seu calor corporal. E a separação de ter que começar a frequentar uma creche ou escolinha? A dor de mandarem você abandonar a chupeta, paninho ou brinquedinho predileto?

Mas talvez você consiga lembrar do primeiro bom aprendizado diante de uma perda. O que você fez com seu primeiro dentinho? Colocou em baixo do travesseiro ou jogou sobre o telhado? Fez algum pedido?

E na fase escolar, os amigos conquistados que ficam são mais significativos do que aqueles que vão embora da escola, de mudança ou por alguma outra razão familiar? Um bichinho de estimação que morreu, que na maioria das vezes tem vida mais curta que a nossa, pode causar a sua primeira dor profunda? Ou será que a mudança tão desejada da infância para adolescência é tão dolorosa e complicada quanto?

Acho que já deu para perceber que muitas coisas vão ficando e nem nos damos conta. Fica parecendo que nossa ultima perda é sempre mais dolorosa, complicada e marcante, até que vem a próxima. Tios, avós, filhos, pais, amigo, um emprego, um bem material, seja por consequências naturais ou invasivas como num assalto, por exemplo.

Existem perdas mais difíceis de lidar... Perder o cabelo num tratamento de câncer, uma mama numa mastectomia, uma perna durante a diabetes, a visão depois de um espancamento, uma mão num acidente de trabalho.

A diferente reação em todas essas situações é individual e intransferível. Cada qual com sua historia, vivencia, e maneira de enfrentar a vida. Baseada muitas vezes nas escolhas que já fez na caminhada traçada. Pois quando você escolheu o caminho da direita, perdeu toda a paisagem da estrada do lado esquerdo. Quando escolheu aceitar frequentar a escolinha, deixou a convivência próxima do pai e da mãe. Quando passou a brincar com outro brinquedo, perdeu as possibilidades do brinquedo velho. Quando aceitou o seu primeiro pedido de namoro, perdeu outras possibilidades de namorar. Quando aceitar que seu filho(a) vai se casar, poderá deixar de ver que está perdendo, para aceitar o ganho de um novo membro na família.

Na maior parte das vezes quando tomamos uma decisão, nos sentimos mais angustiados pelo que estamos perdendo, é uma dificuldade em aceitar e entender que não podemos ter sempre tudo, que existem limites.

Devemos lamentar pelas perdas ou comemorar as novas possibilidades? Ficar preso ao que não foi feito ou perceber novos aprendizados? Essa resposta está no tempo, só ele para nos dar a maturidade suficiente e compreensão de cada escolha tomada e cada perda vivenciada.

Só então com a maturidade é que nos damos conta de como já sofremos por amor, por um emprego, por bens materiais, sofremos, choramos por tanta coisa. Mas começamos a notar o tamanho do aprendizado até então, nos preparando para as próximas experiências.

Será que valeu a pena meu desgaste, minhas lagrimas, meu sofrimento?  Claro que sim. Tudo isso construiu a pessoa que é hoje. Para cada perda houve um ganho, uma lição importante. Há quem escolha cultivar a dor, sofrimento como ato punitivo, culpa, e passa a cobrar da vida a mudança que só ela mesma pode fazer para ter uma vida mais saudável. Mas existem aqueles que conseguem entender que levar a vida de forma leve, compreendendo os fatos e conseguindo enxergar os ganhos dia após dia, é sempre a melhor forma de caminhar.

Perceber que perdeu a espontaneidade é meio caminho andado para recupera-la. Sacar que deixou sua vida de lado porque ficou cuidando do outro, é um passo de tê-la de volta. Conseguir finalmente se dar conta que não está no emprego desejado é sinal de que está na hora de começar a enviar currículos em busca de algo melhor.

Enfim, não há nada pior que o medo de perder, pois esse medo já lhe faz perder! Reflita!

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