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Textos e Reportagens |
Adolescência
no mundo virtual
por
Claude Bornél - Jornal O
Povo
Adolescentes de Fortaleza estão perdendo horas de sono e tempo de estudo por causa da Internet, e os pais não sabem o que fazer. O problema pode estar na falta de diálogo.
A Internet representou um avanço na comunicação
entre indivíduos fisicamente distantes. Mas o fenômeno não vem se repetindo
com pessoas que vivem debaixo do mesmo teto. Em Fortaleza, aumenta o número de
pais recorrendo a psicólogos, sem saber como lidar com filhos adolescentes que
perdem horas de sono e tempo de estudo por estarem mais conectados ao mundo
virtual do que ao real. Na visão de especialistas, o problema pode estar na
falta de diálogo e na dificuldade dos pais em impor limites aos filhos. Eles
afirmam que proibir o acesso não resolve nada. Pelo contrário, apenas aguça
ainda mais a curiosidade natural do adolescente.
A psicóloga Cláudia Patrícia de Castro Delgado, autora da tese de mestrado
''A experiência de Internet na vida de adolescentes: um estudo fenomenológico
em Fortaleza'', explicou que a adolescência é a época das experiências,
quando se está definindo a personalidade do futuro adulto. O adolescente sofre
mudanças na maneira de se relacionar, e isso é normal. Mas se os pais não
sabem o que está acontecendo, os filhos acabam se sentindo impulsionados a
buscar em websites duvidosas respostas que não encontram junto à família.
A tese da psicóloga constatou que a decisão dos pais de restringir a saída
dos filhos, sob alegação de protegê-los das drogas e da violência nas ruas,
motiva o adolescente a buscar dentro de casa formas de lazer e ocupação. A
preferida é a Rede Mundial de Computadores, em que pode criar com colegas de
escola e da vizinhança um grupo diferenciado semelhante ao estabelecido nesses
ambientes fechados.
Os adolescentes e que se reúnem na Internet formam uma espécie de
''clubinho'', e oferecem resistência ao ingresso de pessoas estranhas. Isso
inclui também os próprios pais, sobretudo quando não acompanham o que os
filhos estão acessando. Segundo Cláudia Delgado, fica claro que a Rede está
dificultando o relacionamento entre pais e filhos quando o adolescente troca
atividades com a família pelo computador.
Para a psicoterapeuta Márcia Homem de Mello, por mais que os pais não
incentivem o acesso dos filhos à Internet, acabam criando o efeito contrário
quando apelam para a superproteção. A proteção é falsa, afirma, porque
existe outros perigos escondidos na Rede. Márcia citou o exemplo do site Paltalk
(www.paltalk.com), cuja ferramenta de bate-papo com câmera chamado Te Vejo era
muito usada para pedofilia. ''Esse chat foi fechado em fevereiro, mas
existe outros programas semelhantes que dão abertura para pedófilos. Essas
pessoas ficam se exibindo na Internet, e os pais nem sabem que seus filhos estão
expostos a isso'', disse.
De acordo com a psicoterapeuta, os pais devem impor limites até por questão de
saúde. E o maior problema não é psicológico, mas físico. Márcia diz que é
freqüente esses adolescentes se queixarem de dores na coluna, vista cansada,
tendinite como resultado de lesões por esforço repetitivo (LER), distúrbios
do sono e cansaço físico. ''Os pais devem negociar os limites com os filhos.
Estipular duas horas de uso por dia, por exemplo, e ser rígido para que depois
o adolescente mude para outra atividade'', disse.
A pedagoga Rosângela de Albuquerque Mendes
Soares não entende qual é o prazer que os adolescentes têm em conversar pelo
computador, quando é melhor bater papo pessoalmente. E as filhas Rebecca e Raíssa,
de 15 e 14 anos, explicam: a Internet é um meio de comunicação, mas também
uma forma de se divertir, de extravazar os sentimentos, de conversar e de se
sentir melhor.
A diferença de opiniões levou cerca de dois anos para se ajustar. Rosângela
Soares explicou que as filhas passaram por um período de grande encantamento
com a Internet. Deixavam de sair nos fins de semana para ficar no computador e
acordavam com olheiras porque não haviam dormido bem. Chegou um ponto que foi
preciso criar regras. ''Teve dia de domingo que elas ficaram o dia inteiro na
Internet, desde a hora que acordaram até a noite. A Internet é um bom recurso,
mas não pode ser a função de sua vida'', acentuou.
Raíssa admitiu ter ficado um dia inteiro na Rede e afirmou ter gostado da
experiência. A adolescente disse que pensou na possibilidade de ter feito
outras coisas, como sair, mas que não se arrepende. Já Rebecca lamentou ter
gasto um dia todo em frente ao computador, que poderia ter usado também para
estudar. Apesar disso, gostou de ter conversado com pessoas na Internet que não
encontrava há muito tempo. ''Muitas vezes eu ficava na Internet apenas por
ficar. Meus pais me ajudaram a enxergar isso'', contou Rebecca.
Segundo Raíssa, o tempo que passa conectada é bom, mas a adolescente se queixa
de não ser o horário em que a sua turma navega. Embora perceba no dia seguinte
que suas colegas estão cansadas, porque ficaram até 4h da manhã na Internet,
Raíssa acredita que compensa fazer isso de vez em quando. ''Elas estão fazendo
algo que querem, se divertindo. Podem compensar depois dormindo ou estudando em
outro horário'', alega.
Chats e blogs são motivos para Rosângela se preocurar com as filhas no mundo
virtual. A pedagoga questiona se as pessoas com quem conversam são realmente o
que dizem ser, e porque suas filhas permitem a visitação pública do blog se
um diário é algo pessoal. ''Eu fico incomodada com isso, mas elas respondem
'você nunca entrou, não sabe como é''', afirmou.
Rebecca argumenta que toma cuidado nas salas de bate-papo e não fornece informações
que possam gerar riscos, como telefone e endereço de casa. Quanto ao blog, diz
escrever somente o que as pessoas podem saber. O que não quer que os outros
saibam não escreve, e isso inclui os próprios pais. ''Pode ser que a internet
crie uma barreira de comunicação com os pais, mas os pais estão indo atrás
agora porque a Internet é uma forma de colocar os sentimentos para fora'',
observou.
Nem tudo na Internet é perigoso para o
adolescente. Mas o que faz a diferença é a orientação. A psicóloga Márcia
Homem de Mello conta o caso de um paciente muito tímido que, através da Rede,
passou a se socializar. As pessoas com quem conversava o achavam inteligente e
engraçado, e isso melhorou sua auto-estima. Como resultado, a psicóloga
afirmou que o adolescente desenvolveu um raciocínio rápido e criativo que
antes não conseguia ter.
Márcia Homem de Mello se diz uma crítica positiva da Internet e argumenta que
o problema na relação entre pais e filhos seria outro, não fosse o
computador, assim como já foram os videogames e os seriados americanos. ''Só
muda o foco. O adolescente sempre vai achar outra coisa. Por isso não critico a
Internet o tempo todo. Tem muita porcaria do lado de fora também, do intervalo
da TV à correspondência que a gente rasga sem ver. Por isso a culpa não é da
Internet'', acrescentou.
O colégio Santa Cecília tem um exemplo prático de como a Internet pode
ser uma aliada do adolescente, com a devida orientação. A coordenadora do
setor de informática educativa Marlúcia Delfino Amaral explicou que vários
recursos de entretenimento da Rede como blogs, chats, fotologs e
banco de dados são transformados em atividade pedagógica, dentro e fora da
sala de aula, há mais de um ano.
O sistema divertido de pesquisa é fornecido pela empresa Conecte Educação
(www.conecteeducação.com.br), especializada na implantação, desenvolvimento
e supervisão de projetos de tecnologia educacional. Com ele os alunos podem
baixar revisões de conteúdo e hospedar trabalhos, textos, gravuras e anotações
em um espaço virtual. E os professores podem aplicar provas online,
mediante marcação de uma data e um horário específicos. ''Percebemos que os
alunos agora estão mais interessados em fazer aqueles trabalhos que antes eram
perdidos ou eles diziam que o irmão tinha rasgado e o cachorro comido'',
comentou a coordenadora.
Um dos motivos dos bons resultados do projeto, afirma Marlúcia, é o
trabalho de orientação feito pelo colégio. A coordenadora citou o exemplo de
um aluno sonolento em sala de aula. Descobriram que ele dormia muito tarde,
porque ficava baixando música na Internet. ''Quando conversamos com os pais,
eles não sabiam que isso estava acontecendo e quando souberam limitaram o
acesso para os fins de semana. O aluno voltou a ficar mais atento às aulas'',
disse.
Para a coordenadora, o ideal é que os pais dividam a vida do adolescente com várias
atividades e não optem só por tirar o acesso à Rede. Em sua avaliação, é
importante estabelecer um equilíbrio entre o excesso e a falta, sobretudo se a
criança não tem maturidade para saber que pode acessar por pouco tempo. ''O
adolescente precisa tanto da presença quanto da ausência dos pais. Como
precisam também de esporte, educação, lazer e, acima de tudo, de uma família
estruturada'', observou.
É preciso impor limites
A
psicóloga Priscila Gadelha concorda que deva haver limites quanto ao acesso à
Rede, mas não motivados apenas pelo aspecto econômico. Muitos pais restringem
o acesso ao horário noturno, porque o custo é de apenas um pulso telefônico
por conexão. Mas com isso, o adolescente se conecta à meia-noite e acaba
desligando o computador às duas ou três horas da manhã.
Na avaliação da psicóloga da Universidade Federal do Ceará (UFC), Ana Frota,
de fato a Internet é um foco de conflito entre pais e filhos. Contudo, alega
que não há como controlar o impulso dos mais jovens se o computador é
utilizado por todos. Ana Frota acha válido que os pais verifiquem quais os sites
e chats que seus filhos estão freqüentando, mas diz que hoje os
adolescentes preferem conversar pelo computador, fazendo do virtual a referência
de realidade.
Para Priscila Gadelha, o comportamento dos adolescentes diante da Internet é o
retrato da sociedade atual, em que cada quarto é uma ilha dentro de casa. Em
sua opinião, os pais devem interferir no uso da Internet e ficar atentos para
que a socialização dos filhos não fique apenas no virtual. ''Um pouco de
fantasia não é ruim. O problema é quando o adolescente começa a se esconder,
se restringe ao mundo fantasioso e deixa de passar por experiências do convívio
com o outro que vão propiciar o amadurecimento'', acentuou.
TRIÂNGULO NA FAMÍLIA
O que os especialistas dizem sobre o triângulo pais, filhos e Internet
Por mais que os pais não incentivem o uso da Internet pelos filhos, o excesso
de proteção cria o efeito contrário. O adolescente busca dentro de casa
formas de lazer e ocupação, e a principal delas é a Internet;
A superproteção é falsa, porque existem outros perigos na Rede que os pais não
percebem. Um deles é a pedofilia;
A saúde do adolescente é posta em risco quando fica muito tempo na Internet. O
maior problema não é psicológico, mas físico: queixas de dores na coluna, de
vista cansada, de tendinite como resultado de lesões por esforço repetitivo
(LER) e de distúrbios do sono;
Os pais devem impor limites no uso da Rede, controlando hora e tempo de navegação.
Permitir o acesso somente nos fins de semana, por exemplo;
A interferência dos pais é importante para que o processo de amadurecimento e
socialização dos filhos não se restrinja ao virtual;
Se houver abertura dos filhos, é válido propor para entrarem juntos, pais e
filhos, em sites não recomendados para menores de idade;
O comportamento dos adolescentes diante da Internet é considerado o retrato da
sociedade atual. Cada quarto é uma ilha dentro de casa.