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Textos e Reportagens |
DIVÃ
VIRTUAL
Clientes escrevem seus problemas aos
terapeutas; objetivo é definir regras sobre a terapia pela internet, que hoje
é proibida
Aureliano Biancarelli –
Jornal Folha de São Paulo - 05/2002
Voluntários
testam a psicoterapia on-line
Durante cerca de quatro meses, quase todos os dias, a secretária Andreia,
29, reservou um tempo para sentar-se no computador e descrever as cenas de ciúmes
que fazia e que estavam destruindo seu casamento. Horas depois, recebia de volta
uma "análise cuidadosa" do que estava sentindo.
A jornalista Renata Carvalho, 25, escrevia duas vezes por semana, tentando
entender o "mecanismo" que sempre a afastava dos relacionamentos.
Seriam apenas confidências e desabafos se os relatos de Andreia e Renata não
fossem endereçados às suas "terapeutas virtuais". A terapia pela
internet é proibida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). As duas, no
entanto, fazem parte de um grupo de estudo que reúne 45 clientes usuários e 15
psicólogos. Trata-se da primeira pesquisa sobre "atendimento psicológico
mediado pelo computador" com aval do CFP e protocolo aprovado por Comitê
de Ética em Pesquisa reconhecido pelo Conselho Nacional de Saúde.
Caráter
experimental
Por uma resolução do CFP de 2000, a psicoterapia em meio virtual,
"por ser uma prática ainda não reconhecida pela psicologia", só
pode ser praticada como projeto de pesquisa. O usuário deve assinar formulário
onde conste saber do "caráter experimental" desse tipo de atendimento
e nada pode ser cobrado.
A resolução do CFP foi resultado de debates iniciados anos atrás, ainda no
encontro PsicoInfo-98. Prosseguiram no ano seguinte dentro do Grupo de Trabalho
sobre Atendimento Mediado pelo Computador, criado por sugestão do conselho.
Quando a resolução limitou os atendimentos à pesquisa, havia cerca de 15
terapeutas on-line em atividade no país. Alguns continuam atendendo, reunidos
numa Associação Brasileira de Profissionais de Saúde Mental On Line (leia
texto na página).
Renata e Andreia fazem parte do primeiro grupo de clientes que completou as 15
semanas de terapia previstas nessa pesquisa. Outros voluntários estão no meio
do processo e outros ainda estão apenas iniciando.
O estudo em questão _o único em andamento até agora_ faz parte da pesquisa de
mestrado do psicólogo Oliver Zancul Prado, 27. O objetivo do trabalho _e de
outros que venham a ser iniciados_ é formar uma base de dados que permita ao
Conselho de Psicologia, no futuro, definir regras sobre o emprego da internet.
Na sua pesquisa, Oliver Prado optou por um fórum onde os participantes têm
salas exclusivas na internet, mas não têm a sincronicidade do chat. O cliente
escreve quando deseja e o terapeuta responde quando pode ou quer.
Se optasse pelo ICQ (sigla para a expressão em inglês "I seek you"
[Eu procuro você]), o mais usado programa de comunicação da internet, os dois
poderiam trocar frases simultaneamente, num diálogo escrito. Outros programas
permitem o uso de microfones e câmeras, de forma que os dois lados podem se
ver, ouvir um ao outro e trocar frases escritas.
"Escolhemos o fórum para evitar riscos como a queda na conexão e garantir
a privacidade", diz Prado. O preço dessa segurança é uma psicoterapia
sem os recursos da expressão, dos gestos e da voz. Na psicoterapia on-line também
não há "enquadres" (acertos entre as duas partes), como o horário e
o local, nem há a gestualidade ou dados paralinguísticos. "No fórum, o
terapeuta tem que trabalhar com aquilo que dispõem, no caso, a escrita",
diz Elisa Sayeg, 36, da Comissão de Credenciamento dos Serviços Psicológicos
pela internet. Uma outra psicoterapia terá de ser criada.
"Você sente a falta do brilho no olho, do jeito de sentar, de falar, mas a
linguagem escrita permite uma leitura nas entrelinhas", diz Maria Rita
Lemos, 55, uma das psicoterapeutas que participam da pesquisa. Na sua opinião,
profissionais com maior experiência teriam maior facilidade em entender os
sinais da linguagem escrita.
A jornalista Renata Carvalho esteve entre os clientes internautas de Maria Rita.
"Gosto de escrever e gosto de internet. Não sei se optaria por uma terapia
pelo computador, mas a troca de correspondência foi mais rica que uma amizade
virtual", diz Renata.
A secretaria Andreia diz que na terapia pela internet relatou sentimentos e
situações que não descreveria frente a frente com um terapeuta. "Quando
terminou, senti que estava faltando um pedaço. Gostaria de continuar."
Clientes
especiais
Os primeiros resultados da pesquisa, ainda informais, indicam que a internet
permite uma "relação de terapia" entre cliente e terapeuta. Oliver
Prado diz que não pretende avaliar se a terapia on-line dá bons resultados ou
não, mas saber se a relação psicoterápica pode existir pela internet.
Interesse há: cerca de 350 pessoas se inscreveram para participar da pesquisa
como cliente.
Do grupo que foi aceito, escolhido pelo critério de inscrição, a maioria é
de mulheres. Dois dos selecionados residem no exterior, o que revela um lado útil
da terapia pelo computador.
Outros beneficiados pela cyberpsicoterapia seriam pacientes com síndrome do pânico
e fobias, excesso de timidez, obesos mórbidos e portadores de deficiências,
como surdos. Também seria indicada para pessoas que se deslocam muito, têm
pouco tempo ou estão distantes dos centros urbanos médios e grandes.
Júlio Nascimento, 34, psicólogo do site Mix Brasil, diz que sem um
"marcador corporal" do paciente, é muito difícil haver psicoterapia.
Ele chegou a atender no passado, durante seis meses, uma cliente que se mudou
para Londres.
"Era uma paciente que eu já conhecia, e isso me permitiu viver das
'lembranças' por um período, mas depois esses marcadores foram se
esgotando."
Ivelise Fortim de Campos, 26, que participa da pesquisa, diz que a internet se
presta mais a orientações. "A terapia on-line nunca será igual a uma
face a face."
Psicodramatista
de Recife desafia conselho
Ignorando
a resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP), a psicóloga e
psicodramatista Márcia Homem de Mello, 34, continua atendendo pela internet e
cobrando por isso.
Ela já foi processada pelo conselho por exercício ilegal da profissão, mas o
processo foi arquivado no ano passado. Segundo Márcia, agora é ela quem está
processando o CFP por danos morais.
Ela argumenta que para fazer psicanálise ou psicodrama não é necessário ser
psicólogo, portanto não teria que cumprir a resolução do conselho, que
limita o atendimento a protocolos de pesquisa.
"Nos EUA e na Europa, a internet já é empregada por todas as correntes da
psicoterapia", diz. No psicodrama, onde a pessoa assume papéis pelos quais
revela seus problemas e angústias, a internet facilitaria a construção desses
personagens. "As pessoas soltam mais sua fantasia e imaginação num meio
virtual", afirma.
Na sua opinião, a resistência ao uso da internet ainda se deve "à falta
de conhecimento do ambiente virtual". Márcia fundou e preside a Associação
Brasileira de Profissionais de Saúde Mental On Line, um "local onde se
discute a prática do atendimento pela internet". A associação tem 11
associados, mas nem todos atendem por computador. Márcia cobra pelo atendimento
on-line metade do que cobra em seu consultório, em Recife. Pelo CFP, não
poderia estar cobrando. Suas sessões costumam ser semanais, de uma hora, sempre
em horários preestabelecidos.
Ela sugere que o cliente escolha um horário tranqüilo e que evite ser
interrompido ou sofra a interferência de outras pessoas.
"Se o cliente 'falta', um outro horário é agendado, como na terapia
convencional."
A consulta com Márcia pode ser feita de três formas: pelo ICQ, sistema que
permite o diálogo por escrito, com as duas partes escrevendo ao mesmo tempo em
telas diferentes. Pela simples troca de e-mails. Ou com recursos semelhantes ao
de uma videoconferência, quando o cliente conta com microfone e uma câmara.
Muitos terapeutas afirmam que a internet não permite a prática de itens
fundamentais da psicanálise, a livre associação e a transferência. Márcia
acha que esse fato não invalida a terapia virtual.
E-mail: marcia@homemdemello.com.br
Clínica da PUC tem serviço pioneiro
Os
serviços de orientação psicológica pela internet são autorizados pelo
Conselho Federal de Psicologia, desde que registrados naquele conselho. Embora
oferecidos por psicólogos, são serviços de caráter pontual, que não
estabelecem vínculo terapêutico.
O Serviço de Orientação Psicológica Via E-Mail da Clínica Psicológica da
PUC de São Paulo é um dos primeiros atendimentos que se enquadram nesse
conceito.
A clínica já tem 40 anos. O atendimento por e-mail surgiu a partir da criação
da home-page da clínica, em 1997, desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisas de
Psicologia em Informática (NPPI).
"A partir de 1999, começamos a receber mensagens pedindo ajuda", diz
a psicóloga Rosa Farah, 52, coordenadora da clínica. "Era uma demanda
espontânea, que nos preocupava porque não havia regulamentação e já se
iniciava em meio a polêmicas."
O atendimento pela internet foi implantado como pesquisa, uma forma de se
estudar as melhores práticas para esse tipo de serviço. Cada uma das mensagens
é analisada pela equipe de oito psicólogos e respondida num prazo que vai de
três dias a uma semana.
No site, a pessoa é informada desse tempo de espera e da proposta do serviço,
que se limita a orientações. Caso a mensagem recebida revele alguém em situação
de risco, a equipe poderá responder imediatamente, sugerindo o plantão
"presencial" da clínica da PUC ou outro mais próximo do local onde a
pessoa se encontra.
Hoje, entre 30 e 50 mensagens com teor psicológico são recebidas por mês.
Muitas vêm de outros Estados, de cidades do interior e mesmo de Portugal. Os
temas mais freqüentes são relatos depressivos e queixas envolvendo
relacionamento amoroso. Às vezes a pessoa entra em contato esperando apenas um
acolhimento, dizem os psicólogos da equipe.
A Clínica Psicológica da PUC também oferece um serviço de orientação
profissional via internet, realizado em parceria com a Cogeae, a Coordenadoria
Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão da PUC-SP.
"Esse serviço também tem um caráter pioneiro e faz parte do
desenvolvimento das pesquisas do nosso núcleo sobre atendimento psicológico à
distância", diz Rosa.
Serviço de Orientação Psicológica Via E-Mail: www.pucsp.br/clinpsic
; Orientação Profissional Via Internet, http://cogeae.uol.com.br/op/