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Textos e Reportagens |
Adolescência
sim, “aborrecência” não!
Márcia Homem de Mello© - Publicação ABRAPSMOL
Muito
se ouve, no dia-a-dia em relação aos adolescentes e a fase da adolescência.
É um período de muitos conflitos, de dúvidas e questionamentos.
Acabam
por rotular esta fase de “aborrecência”, como se os adultos nunca
tivessem passado por esse período. Ou será que é porque passaram que
conhecem tão bem, e perceberam-se como “aborrecentes” neste período de
conflitos?
Estar
por dentro da atualidade dos adolescentes, dos conflitos, do social, da
cultura do momento, vai com certeza ajudar a manter contato com essa moçada.
Adultos devem procurar ter o mesmo nível de linguagem, sem se colocar em um
patamar mais elevado por ser adulto.
Os jovens não são crianças, mas também não são adultos. É normal oscilar entre uma fase e outra do desenvolvimento. Assim os pais cobram atitudes de responsabilidade, de adultos, mas também os acham crianças para outros padrões de comportamento. É uma etapa de buscar informações, e podem sofrer por não terem as informações. Cabe aos pais, professores ou psicoterapeutas exercer o papel de provedor da informação.
Muitas
vezes os adolescentes não se sentem à vontade com os pais, têm vergonha de
comentar alguns assuntos, ou os pais também não se sentem em condições de
passarem as informações, responderem questionamentos. Nesse momento o papel
pode ser delegado para outra pessoa, solicitar apoio de um familiar, de um
professor, um médico ou psicoterapeuta.
Os
assuntos são diversos, desde social, relacional, sexual, dependência, até
fantasias, mitos e desinformação. E todos eles têm a importância que o
jovem está dando. O que pode parecer um conflito pequeno, uma problemática
pequena, para quem ouve, não é a mesma coisa para quem está vivenciando a
situação. É ouvir como está sendo dito sem minimizar ou exagerar.
Quem
ouve, deve ser paciente, participativo sem ser invasor. Informar sem decidir
ou dirigir.
Içame Tiba descreve brilhantemente no livro “Puberdade e Adolescência” que “Fazer terapia pode significar, para quem não o faz, ser o terapeutizando um fraco, um problemático, ou seja, conotações que o diminuem. Penso exatamente pela inversa: os adolescentes terapeutizandos têm abertura (saúde) suficiente para perceber e resolver o que não está bem, para continuar seu crescimento. Ninguém se envergonha de ir a um gastroenterologista, cuidar de sua úlcera, mas existem ainda, felizmente em pequeno número, pessoas que se envergonham de pedir auxilio psicoterápico especializado devido ao preconceito: “Quem faz psicoterapia é louco”. A onipotência neurótica geralmente envolve problemas psicológicos, que revela uma insegurança interna, mas pode trazer a negação da existência de tais problemas, portanto pode ser também gratificante. Reconhecer a existência de problemas e a necessidade de ajuda externa pode representar uma falência da onipotência e trazer alguns sofrimentos impostos pela realidade. Abdicar desta onipotência já é uma condição de saúde psíquica”.
Perfeita
colocação que deveria conscientizar a população.
Como
nessa etapa inicia-se também uma fase de maior cobrança com o meio social,
primeiramente com os amigos, com grupos com a “galera”, acompanhada da
cobrança de um relacionamento, um namoro, é importante inserir o jovem
nesse contexto de socialização de uma maneira tranqüila.
Essa
socialização quando não ocorre de forma natural, vai mostrar os conflitos
do próprio adolescente com ele mesmo, suas dificuldades, medos, fantasias,
inseguranças,... É o período no qual começa uma série de questionamentos
afetivo-sexual também. São mais dúvidas do que respostas.
É
um namoro que acabou, é não conseguir namorar, é a dúvida para escolher
uma profissão, é não conseguir fazer amizades, é a comparação física,
transformação do corpo, é querer testar limites, é a competição por
espaço, inicio da relação sexual, comportamento sexual, conflitos
familiares, querer/dever ou não trabalhar, aprendizado dos recursos tecnológicos,...
Época
de aprender irresponsavelmente a ser responsável.
Diante
de tudo isso nos dias de hoje, a depressão o estresse, a fobia, a gastrite,
etc, se percebe cada vez mais nos adolescentes. Assim como a gravidez,
gerando conseqüentemente, pais cada vez mais jovens.
Como
chamar então essa moçada de aborrecente?
Uma fase importante da vida, pela qual com certeza, todo adulto passou, muitos permanecem eternos adolescentes. Aos que conseguem sair dela, vão levar lembranças para a vida toda.
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