Fotografia em Terapia???

Márcia Homem de Mello©

"Mostre suas fotos a alguém: essa pessoa logo mostrará as dela" Roland Barthes

 

Fotografia em Terapia???Tudo na minha vida profissional parece ter uma ligação com o acaso, mas eu é que no fundo acabo sempre procurando uma forma de unir meus conhecimentos a fim de melhorar o resultado do que ofereço enquanto profissional.
E assim foi com a informática e a psicologia e agora com a fotografia. A pergunta que me faço sempre é: "Por que não?"
A ideia surgiu depois do curso de fotografia com o Fernando Siqueira, no qual ele realizava a leitura das fotos para descobrir a linguagem fotográfica de cada um. Mas para isso era preciso mergulhar no mundo pessoal e interno de cada um de nós. Com exercícios foi desnudando cada um de seus alunos, inclusive a mim.
Fernando, que também tem conhecimento de psicologia, me demonstrou como a fotografia pode ser terapêutica, não pelo uso da maquina fotográfica, que para mim já era muito claro, mas pelo resultado das imagens que fazemos. Enfim, comecei a traçar cada vez mais paralelos com meus conhecimentos na área terapêutica, descobrindo mais e mais logicas nos resultados experimentados em mim mesma.
Então, preparem-se porque esse texto será longo, mas prometo que será interessante. Afinal, você pode descobrir-se ou querer experimentar essa descoberta!
Que a fotografia serve para expressar ideias, sentimentos, arte, não é nenhuma novidade. Mas até onde a fotografia pode servir de função terapêutica, além de fazer inclusões sociais, ensinar escolhas, tomada de decisões ou ser um mero instrumento de lazer?

"Imagens são superfícies que pretendem representar algo que se encontra lá no espaço e no tempo, resultado do esforço de abstrair duas das quatro dimensões do plano. Deve sua origem a capacidade de abstração especifica que podemos chamar de imaginação" Flusser, 2002

Na psicologia existe a teoria do mecanismo de projeção, de acordo com a psicanálise, todos nós temos em nosso inconsciente mecanismos de defesa do ego que tem a capacidade de nos proteger de alguma coisa ou situação que consideramos ameaçadora, de modo que entrar em ação para reduzir nossas tensões psíquicas internas. Quando utilizamos o mecanismo de projeção, atribuímos aos outros sentimentos e intenções que na verdade pertencem a nós mesmos. Podemos dizer que os aspectos da personalidade se deslocam de dentro de nós para o meio externo ao qual estamos inseridos. Ou seja, a projeção psicológica ocorre quando o individuo por alguma razão, sente que seus sentimentos são ameaçados ou inaceitáveis, por consequência são reprimidos e projetados a outra pessoa.
A projeção, tal como qualquer outro mecanismo de defesa, é inconsciente e involuntário, então a pessoa, embora esteja claramente a fugir às culpas ou atribuir a alguém algo que é dela, ela própria não tem consciência. Logo quando é confrontada diretamente com a possibilidade de projetar, dificilmente vai aceitar que está atribuindo a outra pessoa os "seus defeitos".
Prosseguindo, temos também a introjeção, que consiste na adoção de regras e comportamentos que podem nos livrar de uma situação ameaçadora ou perigosa. Ela se inicia na infância, quando começamos a aceitar como nossas, regras e valores sociais, não porque acreditávamos que isto fosse o correto a fazer, já que ainda não tínhamos uma opinião formada sobre a vida, mas porque isto nos foi imposto, tanto pela nossa família quanto pelo que éramos capazes de perceber no comportamento dos que nos rodeavam e sabíamos que, "se não dançássemos conforme a música" seríamos punidos ou marginalizados.
Segundo a projeção assimilativa, interpretamos a realidade, não como ela é na objetivamente, mas em função da nossa personalidade, necessidades e experiências de vida.
Bem, diante de toda essa teoria, e eu sempre preferindo a pratica da compreensão, me perguntava, depois de cada leitura que Fernando fazia de minhas fotos, o que eu queria fotografar, como eu queria fotografar, já que eu já fazia isso por anos mas sem nenhum conhecimento técnico e teórico sobre a arte de fotografar. Que tal dar uma olhadinha nas fotos que eu fazia, mas com o conhecimento que o curso de fotografia estava me dando, aliado aos conhecimentos de psicologia??? Hummm,voi lá! Quanta descoberta!
É, podemos esconder tudo e qualquer coisa de nossa consciência, mas nunca de nosso inconsciente e muito menos da forma como ele resolve colocar isso diante de nossos olhos, driblando nossas próprias defesas.

"En mi estudio, las personas aprenden a convertir su propio dolor, sus emociones más difíciles, en obras de arte." Cristina Nuñes

Uma organização conhecida como Volunteer Service Photographers fornecia tratamento a soldados feridos em hospitais militares; no entanto, perceberam que ao incentivar o uso de câmaras escuras portáteis, os pacientes podiam revelar e imprimir suas próprias fotografias, utilizando (de forma inconsciente) músculos e nervos antes julgados inoperacionais. Pouco depois, a organização foi rebatizada como Rehabilitation Through Photography, tendo como objetivo principal aumentar a auto-estima das pessoas e ajudá-las a regressar a uma vida produtiva. Uns primeiros registros sobre, datados de 1941, em plena II Guerra Mundial.
Pintar, costurar, desenhar, cantar, atuar, dançar, moldar,... Quantas atividades fazemos de forma terapêutica??? Se a arte já existe como função terapêutica há milhares de anos e fotografia é uma expressão artística, logo me servirá como instrumento, ainda mais se pensar na base da minha linha terapêutica, o psicodrama.
Meu "guru" o Moreno usando o teatro, desenvolveu teorias sobre a espontaneidade e criatividade. Dizia que para ocorrer a catarse deve existir uma espontaneidade e criatividade, pois, caso contrário, é uma mera repetição que não trará nada de novo nem aos "protagonistas" nem "ao público". É na criação espontânea que se consegue o vínculo do ser humano com o mundo. E o ato espontâneo está intimamente ligado ao instante, dali surge à noção do aqui e agora. Ao ocorrer uma identificação do espectador com os atores, ocorre uma catarse e, também, certa conscientização.

"A Espontaneidade e a Criatividade, não são processos idênticos e sequer semelhantes, representam categorias diferentes, se bem que estejam vinculadas entre si do ponto de vista estratégico. Tal indivíduo pode possuir um alto grau de espontaneidade e ser incapaz de nada criar, pode ser um idiota espontâneo. Já outro pode possuir um alto grau de criatividade, mas achar-se desprovido de toda espontaneidade, é um criador desarmado"  J. L. Moreno

Segundo a concepção de Jung, a energia psíquica converte-se em imagem. Ou seja, o inconsciente, que se revela por meio de funções imaginativas é, na verdade, um auto-retrato do que acontece no espaço interno da psique. Ainda para ele, o indivíduo dá forma ao que não consegue expressar em palavras. Por intermédio de imagens, um conteúdo rico de energia, desejos e impulsos se traduz ao mundo exterior. Jung pedia a seus pacientes que representassem plasticamente os seus sonhos, sentimentos e emoções, por acreditar que as expressões artísticas representavam o cotidiano da vida e faziam transparecer o grau de comprometimento na articulação consciente-inconsciente. Para ele a arte sempre foi um componente de cura.

"A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade." Pablo Picasso

Freud afirmou ainda em sua teoria que o inconsciente se manifesta por imagens, pois elas escapariam da censura da mente com maior facilidade que as palavras. E como eu sinto isso em meus atendimentos online!!!
E a compreensão da arte visual como linguagem veio à tona no período romântico, estabelecendo que a comunicação do sentimento e da emoção se juntava à ideia de criatividade.

"uma atividade humana que consiste no fato de que um homem, conscientemente, por meio de sinais externos, transfere a outros sentimentos que ele experimentou, de modo que outras pessoas são contagiadas por esses sentimentos e também os experimentam." O que é arte?(1898), do escritor russo Tolstoi

E quando acho que estou descobrindo a pólvora, percebo que nada se cria, tudo se copia. Encontrei um site fantástico sobre a ideia que buscava. Ivan de Almeida faz meus olhos colarem no conteúdo do começo ao fim: "O que são as fechaduras das Portas da Percepção a não ser os próprios treinamentos através dos quais interpretamos o mundo?"
Veja quantos trechos interessantes para ajudar minha reflexão:
"Quando perdemos a ideia ingênua do olho ver tudo ao mesmo tempo ao olharmos uma foto, e aprendemos que o olho caminha, estaciona, pula de um ponto ao outro guiado pelo próprio conteúdo da foto, aí entenderemos sua composição, saberemos o jogo que ela joga conosco e saberemos não ser um olhar natural e animal aquele usado por nós para observá-la, mas sim o olhar significador da cultura, treinado para ler os quadros visuais significando-os."
"Um dos maiores obstáculos para nos conscientizarmos disso é a comparação entre o olho e a câmera fotográfica, comparação essa tão pregnante, tão difícil de abandonarmos. Essa comparação dá conta de alguns poucos aspectos do funcionamento do olho, porém é usada de uma forma extensiva, é entendida extensivamente, de modo que termina ocultando a mecânica geral do olhar. O problema dessa comparação é exatamente o citado no primeiro parágrafo: a câmera vê tudo ao mesmo tempo, nós não, a câmera vê toda a cena ao mesmo tempo, nós não."
"O engano multiplica-se quando usamos uma câmera, que vê tudo ao mesmo tempo, para fotografarmos, assim construindo imagens para o olho que não vê tudo ao mesmo tempo. E, pior ainda, não verá tudo ao mesmo tempo quando olhar a fotografia feita."
"A fotografia em si não tem espessura temporal além do tempo de abertura do obturador, ela é, como tantos gostam de dizer simplificando as coisas, um instante congelado (instante correspondente à abertura do obturador). Mas a observação da fotografia não se dá em um instante, ela tem não apenas uma espessura temporal como também um procedimento ocular, um procedimento através do qual o olho percorre a foto assimilando seu conteúdo."
"Porém, feita a fotografia e a exibida, o observador já não a olhará como uma câmera olhou. Ele olhará semelhantemente ao que faz nos ambientes presenciais, isto é, seguindo linhas, reconhecendo formas, interpretando e significando em um processo que é um cruzamento de algoritmos significadores, chamados à ação pelo próprio conteúdo da foto."
"O material de uma composição visual é a psicologia do observador, aqui significando essa psicologia não algo vago e subjetivo, mas o treinamento de significação pelo olhar que todos praticamos, que precisa ser suficientemente coerente com o dos demais homens para todos coexistirem em cooperação numa sociedade... Olhamos para uma seta e sabemos para onde ir, olhamos para uma porta maior em uma edificação e sabemos que ali é a entrada principal. São códigos que sabemos interpretar, mesmo sem consciência de o fazermos na hora."

No site PhotoTherapy encontrei trechos mais específico de técnicas que aliam fotografia e terapia.
ENFIM A POLVORA!!!!

A fotografia pode ser empregada em conjunto com a terapia das seguintes formas:
*terapia fotográfica: conta com o auxílio de um psicólogo especializado na técnica. Utiliza as fotografias pessoais do paciente, tiradas por ele mesmo ou por outras pessoas, para invocar lembranças, crenças e sentimentos, a fim de superar traumas, melhorar o relacionamento interpessoal e recuperar a autoestima;
*fotografia terapêutica: diferentemente da terapia fotográfica, depende apenas do interesse da própria pessoa: basta que ela tenha acesso a alguma câmera fotográfica e pratique. Também pode ser aplicada em grupos de apoio mútuo. É uma interessante maneira de aprofundar o autoconhecimento, aprimorar relações interculturais e até mesmo desenvolver uma visão crítica mais refinada.
Toda foto que uma pessoa tira ou guarda é também um tipo de autorretrato, um tipo de "espelho com memória" que reflete aqueles momentos e aquelas pessoas que foram tão especiais que mereceram serem fixados para sempre no tempo. Consideradas coletivamente estas fotos tornam visível o fluxo das estórias da vida destas pessoas e servem como rastro, trilha, impressão visual que mostram onde estas pessoas estiveram (seja emotivamente como fisicamente) e talvez acenem para onde elas se encaminham. Até mesmo as reações das pessoas a cartões postais, fotos de revistas e fotos tiradas por outras pessoas podem fornecer uma chave reveladora dos segredos da vida interior destas pessoas.
O verdadeiro significado de uma foto se encontra não tanto nos seus aspectos visíveis e sim nas evocações que os detalhes destas fotos suscitam na mente e no coração de cada observador. No momento em que se observa uma fotografia, a pessoa na verdade cria espontaneamente o significado que imagina resultar da imagem fotográfica, e este significado pode ser diferente daquele que o fotógrafo intencionava transmitir. Por isso o sentido (e a linguagem emotiva) de uma foto depende, sobretudo de quem a observou, dado que a percepção individual e a experiência de vida de cada um enquadra e define aquilo que se "vê" como real. Consequentemente a reação que uma pessoa tem de frente a uma fotografia que ela considera especial pode revelar muito sobre si mesma, se forem feitas as perguntas adequadas.

Bem, daqui por diante suas fotos vão ter outro olhar, um olhar mais profundo, mais investigativo. Leve suas fotos para suas terapias, conversem com seus terapeutas sobre elas. Quando for visitar uma exposição, pare mais tempo em cada uma das imagens, e além de analisa-la tecnicamente, vá além desse olhar. Sei que será mais fácil esse olhar para os profissionais "psis", afinal, já temos essa técnica apurada em nossas escutas e observações.

 

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