"Laércio Homem de Mello"
Casado com Lilia – ambos falecidos – Foi Procurador Federal do INSS.
Abaixo algumas Estórias contadas por ele, relatadas aqui pelo seu filho Roberto Homem de Mello.
O BARBEIRO PARAGUAIO
Havia em Porto Murtinho – MS (limite com o Paraguai), lá pelos idos dos anos 30,
um barbeiro de origem paraguaia que só falava um portunhol muito arrastado.
Em determinado dia, atendendo um freguês, um peão boiadeiro brasileiro muito
rústico e ignorante, ao ir fazendo a barba do peão exclamava constantemente: “como
és buena su cútis”.
E assim foram, inúmeras vezes, durante todo o processo da feitura da barba.
O peão, enquanto o barbeiro estava de posse da navalha fazendo o seu trabalho,
não imitiu qualquer som ou comentário e nem dado qualquer palavra ou feito
qualquer manifestação, permanecendo absolutamente quieto e calado.
Terminado o procedimento o peão, ainda calado, efetuou o pagamento e dirigiu-se
para a porta da saída, de lá se voltando para o barbeiro, despejou toda a sua
indignação e saiu-se com esta:
“Olha aqui seu barbeiro gringo, “cútis” és tu e “cutizitos” são todos os seus
filhos “!!!
LAVAGEM DE DINHEIRO
Este fato aconteceu em uma pequena cidade do estado de Santa Catarina, lá pelos
idos dos anos 40.
Em um pequeno Hotel, todo de madeira característico da região, os serviços de
banheiro e sanitários eram localizados em separados da parte principal onde
havia os quartos.
O único sanitário constituía-se de um quadrado fechado de madeira cuja porta era
uma cortina. Não havia assento, mas um buraco, bem fundo, coberto com uma
madeira com um pequeno buraco, sobre o qual as pessoas se acocoravam e faziam as
suas necessidades fisiológicas.
Em um determinado dia, surge no restaurante do hotel um Viajante-Vendedor que lá
se hospedava muito aflito e solicitando ajuda aos que ali se encontravam. Ele,
ao se acocorar para se servir do referido sanitário, ao abaixar as calças,
deixou cair do bolso traseiro da calça a sua carteira de dinheiro dentro do
buraco sanitário, com tudo o que possuía originado de suas cobranças na região.
Imaginem o contratempo e a aflição do viajante!!!!!
Não se assustem o dono do hotel, acostumado a este tipo de contratempo, já tinha
a solução, pois por incrível que pareça, era muito comum.
A solução era uma vara de bambu suficientemente longa, com uma lata pregada em
uma das pontas que mergulhada na “massa” pescava os eventuais objetos que ali
caiam.
Pronto! Lá foram todos os pescadores ajudar o aflito viajante.
Após a inusitada pescaria o conteúdo da lata foi devidamente esparramado pelo
terreno do hotel e, com todos os cuidados necessários, a carteira foi aberta e
os documentos e dinheiro que ali estavam retirados, lavados e estendidos em um
varal onde ficou um longo tempo secando, constantemente vigiado pelo vendedor
que ficou de plantão até poder recolher a sua propriedade.
Mesmo após a lavagem do dinheiro, ficou nele impregnado o indelével odor do
local onde ele havia caído.
Questionou-se, durante longo tempo, o tal vendedor, toda vez que ele era
encontrado por algum dos que presenciaram as cenas se ele, devido à agonia e
pressa com que foi pedir socorro, havia se lembrado de ter usado o papel
higiênico antes de ter vestido as calça!!! Ele teve que agüentar tal gozação por
muito tempo sempre que encontrava um dos que haviam presenciado a inusitada
pescaria.
FOME DE LEÃO
Este caso aconteceu entre duas cidades de
Santa Catarina, nos idos dos anos 40, durante o tempo das chuvas onde as
estradas ficavam intransitáveis e por elas só podiam passar carros de boi,
conseqüentemente o tempo de percurso aumentava consideravelmente.
Meu pai, funcionário publico federal, necessitando ir de uma para outra cidade,
não teve alternativa senão dar um jeito de ir em um desses carros de boi,
devendo o trajeto levar no mínimo uns três dias. Contatado o carreteiro,
acertado o preço, lá se foi o meu pai.
O carro de boi com o seu eixo molhado pelas chuvas e pela lama cantava e
lentamente ia vencendo os obstáculos das estradas esburacadas e lamacentas.
Por volta do meio-dia o carreteiro arrumou um local onde podiam parar e foi
preparar o almoço.
O personagem não era dado às artes culinárias, assim simplesmente sem lavar
nada, cortou uma cebola, amassou uns alhos, cortou em 4 dois tomates e jogou
tudo dentro de uma lata com água, que já estava fervendo em cima de um fogo que
ele havia preparado e colocado umas pedras para assentar a referida lata.
Esperou ferver novamente, colocou um pouco de sal e uns pedaços de carne seca
dentro da lata. Após algum tempo, pegou uma caneca com arroz e também despejou
na lata.
Bem, aí foi só esperar apurar a “gororoba” que de tempos em tempos, com o ferver
da água, subia uma espuma que era retirada passando-se simplesmente as costas de
uma faca na beira da lata e atirada ao chão.
Meu pai, assistindo tudo aquilo, nem pensou em participar do almoço oferecido
com toda a educação pelo “mestre cuca”. Deu uma desculpa e ficou a ver o
carroceiro se deliciando com o seu cozido, no qual foi adicionada uma farinha de
mandioca e algumas gotas de pimenta. O cheiro estava bom!! O que sobrou ficou
ali mesmo dentro da lata que foi envolta em um pano.
A jornada prosseguiu até o fim da tarde pelas estradas horríveis, sem terem
encontrado viva alma.
Ao se aproximar à noite, pararam novamente, improvisaram camas sobre o carro de
boi e antes que escurecesse trataram de preparar novamente a refeição.
Aí a coisa já era mais simples, era só desenrolar a lata do pano, colocar um
pouco de água e deixar ferver novamente. Pronto. Estava resolvida a questão. Meu
pai, com uma fome de leão, ficou outra vez a ver o carreteiro se deliciando com
o seu arroz incrementado, tendo ido dormir com dor de estomago.
No dia seguinte, logo cedo, improvisou-se um pequeno café, cujo pó era fervido
junto com a água e depois deixado assentar para poder beber e uns pedaços de
biscoito.
Prossegui-se a viagem enfrentando-se as más condições do tempo e da estrada.
Pronto, lá estava o meio dia novamente! Repetiu-se igualmente toda a rotina para
a confecção da comida.
Só que desta vez, vencido pelo cansaço, pela noite mal dormida e principalmente
pela fome, meu pai resolveu participar da refeição!!!
Aleluia!!! Que comida gostosa!!!! Que sabor!!!
Meu pai afirmava que tinha sido uma das
coisas mais prazerosas de sua vida e que sempre guardou o gosto daquele arroz.
Comeu tanto que nada sobrou na lata para o jantar, tendo sido necessário
repetirem toda a arte culinária, desta vez com meu pai como ajudante. O sono da
noite foi profundo e reconfortante.
A viagem terminou no dia seguinte, tendo sido feito mais uma vez a tal
“gororoba” na hora do almoço que foi servida e comida com satisfação e alegria
de todos.
PAPAGAIOS GETULISTAS
Em minha memória só ficou o fato do “causo”
contado por meu pai LÁ PELOS ANOS DE 1950.
Em uma viagem que ele realizou quando era Delegado do antigo IAPETC (Instituto
de Aposentadoria dos Empregados em Transporte e Cargas = um dos precursores do
atual INSS= INPS), cuja Delegacia era em Cuiabá – MT.
Indo a uma das cidades a ser fiscalizada, foi obrigado a fazer a viagem com uns
amigos em um Jeep daqueles antigos oriundos da 2º guerra, devido ao mau estado
das estradas naquela ocasião.
Preparada a “matula” (farnel/comida) pela minha mãe lá se foi meu pai.
Isto agora merece uma pequena pausa para se poder falar da “matula”, pois foi
uma das coisas que até hoje guardo na memória e da qual não pude provar nada.
Minha mãe pegou uma lata de biscoito daquelas antigas, quadradas vermelhas, de
“Cream Craker”, e foi colocando camada de farofa com muito ovo e camada de
frango desfiado, ambos de nossa criação, até a parte superior da referida lata.
Exalava um cheiro tão bom que o guardo na memória até hoje. Segundo meu pai a
comida não deu nem para o começo, tendo sido simplesmente devorada na primeira
parada que fizeram.
Bem, continuemos a estória.
A viagem prosseguiu por estradas muito ruins e esburacadas. Um ou dois dias
depois, ao chegar o fim da tarde, acercaram-se de uma pequena fazenda onde
pediram hospedagem, tendo sido todos eles muito bem recebidos e alimentados.
No dia seguinte, ao tomarem café da manhã escutaram uma barulheira de pássaros
no lado de fora da casa e perguntaram ao fazendeiro do que se tratava. O
fazendeiro então os levou para ver o que era.
Encontraram do lado de fora em um poleiro grande um casal de papagaios, bonitos
e muito bem tratados. Falavam muitas coisas e entre as coisas que haviam
aprendido destacava-se: enquanto um gritava “viva o Getulio” o outro batia as
asas e gritava bastante imitando o ruído do povo aplaudindo. Uma coisa
inédita!!!
O fazendeiro dizia que já havia rejeitado pequenas fortunas pelo casal de
papagaios.
A viagem prosseguiu até o seu final sem maiores incidentes.
O DEFUNTO DA JARDINEIRA
Esta estória já a vi reproduzida em algum
lugar.
Entretanto, escutei-a quando tinha aproximadamente uns 8 anos quando meu pai
fazia suas andanças de trabalho pelo interior de Santa Catarina, como
funcionário federal, tendo sido ele um dos participantes.
A estória se passa entre duas pequenas cidades de Santa Catarina onde o
transporte era feito em “jardineiras” (pequeno ônibus aberto lateralmente com os
bancos dispostos de um lado a outro, com estribos para se poder ter acesso aos
bancos). Na parte posterior do ônibus havia uma escada que levava até a parte
superior onde eram colocadas as bagagens e tudo o mais que fosse necessário ser
levado de uma para outra cidade, pois este era o meio de transporte de pequenas
cargas.
Meu pai relatou que entrou na jardineira sentou-se em um dos bancos e o veiculo
tomou o seu destino.
A parte superior estava carregada de inúmeros volumes. Durante o trajeto a
jardineira ia parando para subir e descer passageiros e as suas bagagens e
cargas. Em um determinado momento da viagem a parte de baixo, onde estavam os
bancos, ficou lotada. Assim, na próxima parada, os passageiros sem ter onde se
acomodar subiram para a parte de cima da jardineira e se acomodaram entre a
carga. Durante o longo trajeto chegou a cair uma pequena chuva tendo os
passageiros da parte de cima se abrigado da melhor maneira que podiam.
Após algum tempo depois de haver a chuva parado, com a jardineira em pleno
movimento, escutou-se uma grande gritaria na parte de cima onde estava a carga e
alguns passageiros, tendo inclusive uns dois ou três despencado e caindo em
plena estrada.
Pânico e gritaria geral!!! Gente que saltava da jardineira andando sem saber por
quê!!! Confusão!!!
Enfim, alguns metros adiante a jardineira para e procura-se saber as razões de
tanta confusão!!! Tudo acalmado e serenado constatou-se o seguinte:
- entre a carga que estava sendo transportada na parte superior da jardineira
havia um Caixão de Defunto que tinha sido encomendado e estava sendo levado para
cidade seguinte.
- durante o trajeto, quando a parte de baixo ficou lotada, os passageiros
passaram a se acomodar na parte de cima.
- quando começou a chover só havia um passageiro em cima e para não tomar chuva
ele simplesmente abriu o caixão e se acomodou dentro. Todo alcochoado e com o
balanço da jardineira ele acabou por adormecer.
- a jardineira, em seu percurso seguinte, acabou pegando mais alguns passageiros
que se acomodavam em cima, ao lado das cargas inclusive do Caixão de Defuntos,
que deixava o ambiente desconfortável e ficavam todos olhando de lado.
- em um determinado momento do trajeto, o dorminhoco do Caixão acorda,
simplesmente abre a tampa e pergunta “como é, já parou de chover?”.
- vocês podem imaginar o que aconteceu com a inesperada aparição!!! Foi aquele
susto!!! Gritaria!!!! Uns pulando de cima da jardineira em movimento!!!! Os
passageiros que estavam na parte de baixo sem saber o que acontecia em cima
também gritavam!!! Foi uma grande confusão!!!
- após os esclarecimentos alguns passageiros tiveram que ser contidos pois
queriam dar um corretivo no “dorminhoco”.
Bem, depois de acalmados e serenados os ânimos a viagem prossegui até a cidade
destino onde esta estória serviu de assunto por muito tempo.
Eu a escutei do meu pai nos idos de 1947.
O VELÓRIO
Este causo me foi relatada pelo meu primo
Helinho em DEZ/2001, o que havia acontecido quando do falecimento de meu pai em
Dez/91, ou seja, há exatamente 10 anos antes.
Vamos aos fatos.
Em novembro de 1991 eu havia sofrido um enfarte e estava hospitalizado. O
Helinho, que morava em Vassouras – RJ, preocupado comigo, telefonava quase que
diariamente para meus pais para saber do meu estado. Em determinado momento não
eram mais os meus pais que atendiam ao telefone e sim outras pessoas. Ele não
sabia, mas meu pai também havia sofrido um enfarte e estava hospitalizado.
Quando ele ligava passou a se identificar como o “Helinho de Vassouras”. Meu pai
veio a falecer e minha mãe o comunicou. O Helinho imediatamente resolveu vir a
São Paulo para o enterro. Assim pensou, assim fez. Tomou um ônibus à noite e
chegou em São Paulo de madrugada. Dirigiu-se imediatamente para o velório que
acontecia no Cemitério Gethesêmani. Lá chegando foi informado que o velório
acontecia logo ali na primeira Capela para onde se dirigiu. Segundo o Helinho,
ele se encontrava psicologicamente mal, pois não acreditava no que estava
acontecendo. Ao chegar à Capela só notou a cabeleira prateada do meu pai dentro
do caixão, pois suas pernas tremiam. Na Capela havia apenas uma única
acompanhante. Ele se dirigiu a ela e se identificou como o “Helinho de
Vassouras”. “Oh que bom você ter vindo meu filho” disse a senhora “eu sou a
viúva”! Neste momento o Helinho percebeu que estava na Capela errada, pois a
viúva não se tratava da minha mãe e tia dele. Ficou constrangidíssimo e sem
condições de sair daquele velório tendo em vista a alegria da senhora solitária
em ter um acompanhante e ficado muito contente com a chegada do “Helinho de
Vassouras”. Assim ele se viu obrigado a ali ficar durante toda a madrugada
confortando a viúva. Logo cedo começaram a chegar uns parentes do falecido e o
Helinho conseguiu sair de fininho e ir para a Capela onde esta acontecendo o
velório do meu pai.
Como se pode notar pelos relatos acima o meu pai sempre foi um ótimo contador de
“causos inusitados” e segundo o Helinho, meu pai o fez personagem de um em sua
partida.
A viúva do outro velório deve estar se perguntando até hoje onde foi parar o
“Helinho de Vassouras” que lhe fez companhia durante a madrugada. Pode estar
pensando que foi uma “alma boa” que lhe confortou naquela hora difícil pois o
“Helinho de Vassouras” simplesmente desapareceu!
A PEIXEIRA DO ÔNIBUS
Esta eu escutei pessoalmente de um cearense
em um ônibus lotado nas proximidades do CEASA em Recife, lá pelos idos de 1980.
Tomei um ônibus que aos poucos foi ficando lotado. Em determinado momento não
era necessário nem se segurar de tanta gente que se comprimia dentro do ônibus.
Na minha frente um passageiro começou a rir sem qualquer motivo, procurando
esconder o mais que podia o riso. Ele, percebendo que eu havia notado o seu riso
começou a me contar a seguinte estória:
Estava ele, em Fortaleza, em uma situação idêntica a que nos encontrávamos
naquele momento, ou seja, em um ônibus superlotado, quando dois passageiros, no
meio do ônibus começaram a brigar em altos brados e com muita energia, causando
um mal estar bem grande e com manifestações desabonadoras dos demais
passageiros. Entretanto os dois briguentos cada vez mais se exaltavam, até que
um deles gritou desesperadamente: “peixeira aqui não!”, como se um dos desafetos
estivesse puxando da cinta uma faca!
Foi um desespero geral dentro do coletivo superlotado! Mulheres começaram a
gritar! Crianças chorando! Homens também gritando! Gente querendo sair do
ônibus! Pessoas quebrando janelas para saírem por elas! Passageiros pulando do
ônibus em movimento! Um verdadeiro caos! Quando o motorista parou o coletivo e
todo mundo saiu desesperadamente e procuraram os briguentos, estes não foram
mais encontrados.
Aí se percebeu que se tratava de uma brincadeira de mau gosto que causou um
grande transtorno e desespero nas pessoas que se encontravam no coletivo super
lotado. Ainda bem que os “brincalhões” sumiram, pois se armou uma indignação
geral que, certamente, resultaria em um linchamento nos dois inconseqüentes.
Este acontecimento veio à memória do passageiro que ria e se encontrava na minha
frente, naquela situação idêntica, e ele imaginava o que aconteceria se ele
gritasse naquele momento: “peixeira não!”.
Rimos muito todos aqueles que se encontravam a nossa volta e escutaram a
estória.
Felizmente, ninguém pretendeu fazer a experiência e cada um foi descendo em seus
pontos de destino, sem qualquer contratempo.