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Advogado HM Balança

 

Entre a biologia e a espiritualidade

Dr. Eduardo Rudge - Médico com Especialização em Dependência Química

 A espiritualidade apresenta-se para mim como a qualidade pela qual uma pessoa se relaciona com as coisas que lhe são mais importantes, no seu mundo exterior e também consigo mesma, manifestando-se pelo seu comportamento, pelo modo de viver dessa pessoa. A espiritualidade é portanto muito  concreta, tendo a ver com as nossas realizações e com a sintonia que mantemos conosco, com as outras pessoas e com o mundo que nos cerca. E esta sintonia transcende a existência individual, quando nos conscientizamos das nossas responsabilidades sobre as escolhas e os caminhos que trilhamos.    

Na Conferência de Abertura do 13º Congresso Brasileiro de Alcoolismo (Rio de Janeiro, 12 a 15 de agosto de 1999), o Dr. George Vaillant, expoente mundial nos estudos de alcoolismo, afirmou:

"O poder que a dependência química exerce sobre os seres humanos não reside no nosso córtex. O poder da dependência em nossas mentes mora no que foi chamado o nosso cérebro de réptil. O poder localiza-se no campo das transformações celulares no meio do nosso cérebro –  o nucleus accumbens e o tegmentum superior. Essas transformações estão além do alcance da força de vontade, além do alcance do condicionamento e além do alcance do ‘insight psicoanalítico’."

Essas formações citadas pelo Prof. Vaillant situam-se numa região muito bem definida do cérebro denominada Circuito de Recompensa, e é aí que se processam as sensações do prazer que, moduladas pela consistência moral daquilo que se pensa e que se faz, determinam o significado e o propósito da própria vida. Vale dizer que aquilo que se pensa e o que se faz também é influenciado pelo Circuito de Recompensa, pois este possui interações diretas ou indiretas com várias áreas e sistemas do cérebro, incluindo as relacionadas à vivacidade, emoção, memória, motivação, equilíbrio e controle dos hormônios, as quais, somando-se à sua interação com o córtex, modulam o caráter e o comportamento da pessoa.      

Além das recompensas fundamentais — satisfação sexual, manter-se alimentado, sem sede, aquecido, em segurança e outros prazeres existentes em animais inferiores (daí a referência do Prof. Vaillant ao réptil) —, o homem demonstra prazer na reciprocidade afetiva, bem como no amor, aceitação, posicionamento e reconhecimento social e em muitos outros prazeres relacionados com o seu temperamento e personalidade.

 

Esse prazer intenso, biológico, e que proporciona às pessoas um sentido de vida, fundamental para a sua autopreservação, também é fundamental para a vida social e para a perpetuação da espécie, assumindo então um caráter transcendente, motivo pelo qual nós podemos apontar o Circuito de Recompensa como o local de ligação, a interface da biologia com a espiritualidade.

De uma forma ou de outra, as drogas, como o álcool, têm sua ação centrada no Circuito de Recompensa, proporcionando prazeres artificiais e fugazes, mas como são prazeres, constituem reforço para a continuidade progressiva do uso, uma das características da doença alcoolismo. Os estímulos que partem do Circuito de Recompensa, alterados pelas drogas, e que vão para outras áreas do cérebro, determinam distorções, sobretudo relacionadas ao comportamento e ao caráter.  E como bem disse o Prof. Vaillant, a sua localização fora da área cerebral onde se elaboram os pensamentos, o raciocínio e o comportamento, impede a atuação da força de vontade no sentido de diminuir o padrão do uso de tais substâncias, impondo-se então a necessidade de se abolir o seu uso.

 

Nesse ponto do raciocínio retornamos à espiritualidade e sua ligação com o Circuito de Recompensa, para afirmar que através dela, promovendo-se a reformulação do comportamento a níveis aceitáveis, pode-se interromper o curso da doença, prolongando-se a disposição de abstinência na medida em que se processa um aprimoramento espiritual.

E, como dissemos ao início, a espiritualidade, manifestada pelo comportamento, transcende o plano material, e essa continuidade faz com que haja uma interação entre esses níveis: um nível material, do homem e seu comportamento, e um nível superior a ele mesmo, de um Poder Superior, ou Deus.

 

Dessa forma podemos concluir que, dentro dos conhecimentos científicos atuais, um processo terapêutico que demonstre eficiência para deter o curso da doença alcoolismo, tem obrigatoriamente que incluir um programa de revisão e aprimoramento espiritual, do mesmo modo como pensaram os co-fundadores de A.A., Bill e Bob, há mais de 60 anos.

 

Eles freqüentaram as reuniões dos Grupos Oxford, uma sociedade religiosa onde se preconizava o altruísmo, amor, honestidade e pureza, todos de forma absoluta. Tais coisas que não agradavam muito aos alcoólicos, que também se sentiam pressionados pela severidade do grupo. Mas ali se enfatizava a necessidade do trabalho pessoal de um membro com o outro, e se praticava um tipo de confissão, a reparação de danos causados e a meditação.

 

De todo modo, os Grupos Oxford reuniam pessoas com outros padecimentos que não só os do alcoolismo, e por isso os co-fundadores de A.A. resolveram organizar grupos de mútua-ajuda específicos para alcoólicos, estabelecendo um programa de seis etapas, com o objetivo de um aprimoramento permanente e gradual da espiritualidade. Inspiraram-se nos pensamentos de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino – com suas quatro virtudes capitais, Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança –  e William James, o grande psicólogo e filósofo do pragmatismo americano, autor da obra As Variedades da Experiência Religiosa, que compartilhou com Karl Gustav Jung, eminente médico e psicólogo suíço discípulo de Freud, as idéias sobre a importância da experiência espiritual nos casos de difícil tratamento psicológico convencional (em correspondência com Bill, Jung chegou a mencionar a necessidade de uma "deflação do ego" e a conveniência de um contato pessoal e honesto com outro semelhante).

 

De toda essa experiência resultou o Programa dos Doze Passos, que foi rápida e universalmente aprovado por clérigos de todas as religiões, por psiquiatras e outros profissionais dedicados ao tratamento do alcoolismo e, o que é mais importante, pelos próprios alcoólicos que buscam a sobriedade.

 

“Podemos concluir que, dentro dos conhecimentos científicos atuais, um processo terapêutico que demonstre eficiência para deter o curso da doença alcoolismo, tem obrigatoriamente que incluir um programa de revisão e aprimoramento espiritual”

 

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